Meio da manhã. A criança já pegou e largou duas ou três atividades, parece sem rumo e começa a cutucar quem está por perto. O adulto conclui o que parece óbvio: ela está cansada, precisa de uma pausa, de mudar de ambiente. Maria Montessori tratou dessa cena, e da conclusão que tiramos dela, numa conferência dada em Bruxelas, publicada em La Femme Belge e reproduzida em 1924, em francês e em inglês, na revista The Call of Education.
Ela começa explicando o título, O caráter da criança. Caráter, ali, não quer dizer só os traços morais: “designa toda a personalidade da criança”, que é uma unidade. Para descrever a atividade da criança, Montessori pede ao público que imagine um gráfico em que a linha reta é o repouso, o que sobe é trabalho ordenado e o que desce é desordem. O primeiro traçado é o da criança que pega os encaixes sólidos, depois as tabuinhas de cores, depois os sinos, e entre uma coisa e outra perturba o vizinho e importuna a professora. Em meio dia ela passa por todo o material, que daria para um ano de trabalho.
O segundo traçado é o que interessa. Passado algum tempo, a mesma criança começa o dia com um trabalho fácil, provavelmente de vida prática, repete exercícios com um objeto conhecido e então parece cansada, incerta. É nessa hora que a professora de bom coração resolve dar repouso e leva a classe ao jardim. As crianças voltam mais agitadas do que antes, e o suposto cansaço reaparece sempre. Montessori diz que essas professoras estudaram fielmente o método, mas “faltou-lhes a confiança necessária para respeitar a liberdade da criança”: intervieram e interromperam um processo que estava em curso.
A professora que tem a paciência de esperar vê outra coisa. Depois daquela agitação, a criança escolhe um trabalho novo, difícil para ela, entrega-se a ele por um tempo longo e isola-se do que a cerca. É o que Montessori chama de Grande Trabalho. Quando termina, a criança não está exausta: tem o rosto luminoso e calmo, “como se lhe tivessem aplicado uma injeção de força”. O que parecia cansaço era a preparação para esse trabalho, e ela dá a esse intervalo o nome de falsa fadiga.
Para explicar o engano, ela compara a criança a um conviva com fome. Ele come as azeitonas, toma o caldo e olha para os lados com impaciência. Uma testemunha amável conclui que ele está saciado, propõe uma volta pelo jardim e manda deixar o assado para outro dia. Outra, mais sagaz, entende que ele está pronto para devorar o assado. A criança inquieta depois dos primeiros exercícios é esse conviva, e só ela pode escolher o trabalho que lhe convém. Daí a frase central da conferência: “Para permitir que a criança repouse, é portanto necessário tornar-lhe possível o Grande Trabalho”. Repouso, para Montessori, não é ficar sem fazer nada.
Depois do Grande Trabalho vem um terceiro momento, todo interior, que ela compara à digestão: a criança contempla o ambiente, repara em detalhes que antes lhe escapavam, aproxima-se da professora. Com a repetição desses ciclos a falsa fadiga encurta e aparecem a disciplina e uma obediência que ninguém ensinou, porque obedecer exige força: “Como poderia obedecer à vontade alheia, se é incapaz de se submeter à sua própria?” O final é abertamente religioso. Montessori vê nesse percurso uma semelhança com a vida dos religiosos (ambiente preparado, concentração, contemplação, silêncio, exercícios repetidos dia após dia), mas avisa que não foi buscar o modelo nos monges: foram as crianças em liberdade que lhe revelaram essas leis. Exortações, ameaças e ordens, conclui, não dão a ninguém a força que lhe falta.
Em abril de 1928 a conferência voltou a sair, agora em italiano, na revista L'Idea Montessori, sem a nota que a situa em Bruxelas. É o mesmo texto, parágrafo por parágrafo, num italiano com marcas de ter sido vertido do francês. Há dois cortes pequenos: falta o parágrafo sobre querer ensinar as manifestações da riqueza interior sem antes dar essa riqueza, e falta a frase sobre as crianças que, quando esperam alguém, arranjam um trabalho para esperar com paciência. Por isso a íntegra publicada aqui é a de 1924, mais completa.
Para quem convive com crianças pequenas, a conferência deixa uma dúvida útil diante da inquietação: é cansaço ou é fome de um trabalho maior? Ela também desloca o que entendemos por descanso, que para Montessori vem do trabalho escolhido pela criança e levado até o fim. Um aviso antes da leitura: ela fala de gráficos que ia traçando diante do público, e a revista não imprimiu nenhuma figura. A seguir, o texto completo.
O texto de Maria Montessori, na íntegra
Fonte: The Call of Education. Psycho-pedagogical Journal, 1924, Vol. I, n. 2, p. 85–103
Título original: Le Caractère de l'enfant (francês, p. 85–94); Child Character (inglês, p. 95–103) (francês (conferência publicada em duas línguas no mesmo fascículo; itens 01 e 02 do sumário))
O caráter da criança [1]
por
Dra. MARIA MONTESSORI
Foi de propósito que escolhemos o título "O caráter da criança". Para nós, "caráter" não quer dizer apenas os traços de caráter morais: designa toda a personalidade da criança, que não é composta de fatores morais, intelectuais, físicos etc., mas é uma unidade e só poderia ser analisada por um trabalho de psicólogo. Propomo-nos dar uma visão geral do caráter da criança, caracterizar a sua atividade, que tantas vezes é deixada de lado e que mais vezes ainda é mal interpretada.
Suponhamos que o desenvolvimento de um trabalho seja representado por linhas.
Suponhamos ainda que uma linha reta represente para nós o estado de repouso. Suponhamos, de novo, que todas as linhas traçadas na parte de cima figurem um trabalho ordenado, isto é, a ordem, e que todas as da parte de baixo figurem, ao contrário, um trabalho desordenado, ou a desordem. Olhemos por um instante este esquema e, munidos desse guia, imaginemos que acompanhamos, numa escola, a ação de uma criança.
Representemos as diversas circunstâncias: a criança entra na escola; fica um instante tranquila, depois pega um trabalho. Eis a linha que começa a penetrar na região da ordem; em seguida a criança se cansa e comete atos desordenados; a linha desce imediatamente para a região da desordem. A criança apodera-se então de um novo trabalho. Se, por exemplo, pegou primeiro os encaixes sólidos e pega em seguida as tabuinhas de cores, nós a vemos aplicada por um instante; mas de repente ela perturba o vizinho, e então a linha desce; ei-la que se diverte em provocar os colegas e assim se mantém voluntariamente na desordem. Depois disso escolhe os sinos das notas musicais; vai fazê-los soar, ficará tranquila ainda por um instante, e eis a linha que torna a subir para a ordem. Quando tiver terminado, irá importunar a pobre professora.
Esta linha poderia dar-nos uma ideia das ações cotidianas de que acabamos de falar; nos daria igualmente um gráfico do trabalho individual de uma criança na escola.
Gráficos semelhantes podem indicar, num relance, o desenvolvimento de um fenômeno prolongado, que poderemos acompanhar graças a uma lei, se é que ele contém alguma.
Mas nesta linha não vemos a lei capaz de nos interessar; é o gráfico daquelas numerosas crianças que passam de um trabalho a outro sem conseguir fixar a atenção e que, em meio dia, manipulam todo o material, que poderia bastar para um ano de trabalho. Temos diante de nós o tipo da criança desordenada por excelência.
Deixemos passar certo tempo e, depois de um intervalo, voltamos à mesma criança, na qual, desde algum tempo, se produziu o fenômeno da concentração, da atenção.
Vou desenhar agora um gráfico que representa, aproximadamente, o trabalho médio que se opera na criança que já não é desordenada, mas ainda não é de todo ordenada: de certo modo, o meio-termo entre a ordem e a desordem.
Ao entrar na escola, a criança pega um trabalho muito fácil, muito repousante para ela, provavelmente um dos exercícios de vida prática. Deixa-o para escolher no material escolar um objeto familiar e repete certos exercícios. Nós a vemos então cansada, incerta, e sua linha desce abaixo da linha da ordem. Esse fenômeno pode produzir-se não só numa única criança, mas numa classe inteira. Que diria então a professora sem experiência? Concluiria que as crianças estão cansadas depois de fazer os exercícios de vida prática ou de trabalhar com o material, que o fenômeno da concentração não se produziu, mas que ela nada pode fazer.
Supondo que essa professora tenha bom coração, que seja versada nos princípios de psicologia e de higiene psicopatológica tão preconizados em nossos dias, ela decidiria que depois desse trabalho é preciso dar repouso às crianças, suspender os exercícios, mudá-las de ambiente, e as levaria ao jardim. Ver-se-ão então crianças brincando em desordem, que encherão o jardim com seus gritos e que, ao voltar para a classe, estarão ainda mais agitadas do que antes; não fariam senão variar o trabalho, e esse estado de pretensa fadiga voltará sempre a apresentar-se.
Quantas professoras não pensaram consigo mesmas: não é verdade que o trabalho livre traga a paz e a serenidade às crianças pequenas; na realidade, vejo que elas escolhem livremente sua ocupação, entregam-se a ela por um instante e se mostram sempre mais agitadas; por mais que eu as faça repousar, que as faça mudar de ambiente, não consigo nem fazê-las trabalhar, nem dar-lhes repouso!
Essas professoras estudaram fielmente o método, mas faltou-lhes a confiança necessária para respeitar a liberdade da criança. Não conseguiram deixar de raciocinar, de recorrer a seus conhecimentos científicos, de intervir, de procurar dirigir e, ao fazê-lo, interromperam o processo do fenômeno, transtornaram tudo.
Se, ao contrário, uma professora se mostra respeitosa da liberdade da criança, se tem bastante confiança nela, se tem a força de caráter de esquecer por um instante a ciência de que sua inteligência está abarrotada e se consegue fazer-se humilde o bastante para não julgar útil a sua intervenção, ela terá a paciência de esperar. Então verá irromper o fenômeno: depois do trabalho preliminar, depois da agitação do espírito que busca nas profundezas de sua consciência, ainda não iluminada pela luz, a criança escolhe um trabalho novo, difícil para ela; dedica-lhe toda a sua atenção, absorve-se nele, entrega-se a ele de toda a alma; isola-se do ambiente que a cerca durante um tempo bastante longo: é isso que chamamos o Grande Trabalho.
Quando termina, a criança abandona o objeto que foi o instrumento de sua concentração. Apresenta então características completamente diferentes das que apresentava no suposto estado de fadiga. Parecia agitada, cansada; agora seu rosto tem uma expressão luminosa; a calma, o repouso reinam em suas feições, como se lhe tivessem aplicado uma injeção de força.
É isso que nos faz compreender, ou, melhor dizendo, nos demonstra que há ali um ciclo único e completo de trabalho, composto de duas partes: a primeira, a da preparação, do trabalho de treino que abre caminho para a segunda, o Grande Trabalho.
Comparemos a criança a um conviva. O conviva tem fome. Trazem-lhe azeitonas, depois um caldo. No caso da criança, não lhe servem antepastos; seu aperitivo espiritual é ela mesma quem o escolhe, com um instinto que lhe ensina que, antes de comer os pratos ou o alimento mais substancial que deverá absorver, é preciso preparar-se para isso.
Depois do caldo vem o suculento assado; a pessoa sentada à mesa come até se saciar. Se uma amável testemunha a observa comer as azeitonas com avidez, depois saborear lentamente sua xícara de caldo e em seguida olhar para a esquerda e para a direita com impaciência, essa testemunha dirá sem dúvida: "Este senhor está saciado, está cansado e procura uma ocasião para ir embora. Já sei o que vou fazer: vou propor-lhe dar uma volta pelo jardim". Os dois saem; ao passar, a bem-disposta testemunha dá ordem à cozinha para deixar o assado para outro dia. Como será agitado esse passeio! Por que meio se há de restituir a calma, a serenidade e a força à alma desse pobre faminto?
Se, ao contrário, a testemunha for mais sagaz, ao ver o homem das azeitonas e do caldo olhar para a direita e para a esquerda com impaciência, dirá consigo: "Eis um que tem fome; está pronto para devorar o seu assado", e será um verdadeiro prazer para ela, testemunha, ver o outro comer de bom humor e saborear com alegria a sua comida.
Suponhamos, ao contrário, que pessoas bem-intencionadas e preocupadas com o bem alheio tenham dito a si mesmas: este homem come demais; eu, que conheço bem a anatomia e a fisiologia, sei que sua mandíbula tem de despender uma força de vários quilogramas para reduzir este filé a bolo alimentar. É preciso detê-lo. — "Senhor, deixe aí o seu filé, o senhor está com a mandíbula cansada!"
Eis a ocasião de esquecer um pouco toda a sua ciência.
Depois do Grande Trabalho, a criança está repousada; poder-se-ia até dizer: é então que ela está verdadeiramente repousada! Sua serenidade luminosa, sua calma devem bradar à nossa alma uma verdadeira novidade. Com efeito, essa criança não nos mostra os indícios da fadiga, mas as características fisiológicas de uma superabundância de vida. É o mesmo fenômeno que se produz depois de um bom jantar ou de um banho, que são na realidade exercícios, um trabalho, mas que, longe de diminuir as forças, servem para devolver o vigor à vida; do mesmo modo, existe um trabalho psíquico que torna o espírito vigoroso.
Para permitir que a criança repouse, é portanto necessário tornar-lhe possível o Grande Trabalho.
Com efeito, o que é o repouso? Para nós, repouso não é ficar sem fazer nada; os músculos não repousam na imobilidade, mas pelo movimento normal. Do mesmo modo, o repouso psíquico encontra-se num exercício capaz de dar vigor à inteligência.
Tudo isso é tão misterioso quanto a essência da vida. Uma professora não pode dizer: este ou aquele trabalho é neste momento necessário a esta criança para torná-la vigorosa. É coisa que está acima de seus meios, pois só a própria vida da criança é capaz de escolher o trabalho que lhe convém. É nisso que reside o respeito pelo trabalho da criança, a confiança na espera.
Essa criança repousada é uma criança pequena alegre, de espírito sereno, disposta talvez a fazer confidências à professora, porque sua alma se abriu e ela vai até a professora como se tivesse percebido que esta lhe é superior. Nota agora, em seu ambiente, uma multidão de coisas que antes lhe escapavam. Tornou-se evidentemente mais rica e, por isso mesmo, mais expansiva.
Também o conviva, depois de saciado, cumprimentará amavelmente um amigo que encontre no caminho, ao passo que, em jejum, talvez passasse por ele sem o olhar. Isso não deve nos espantar.
Antes de poder despender forças, é preciso tê-las acumulado. Uma professora que pretendesse dar uma lição a uma criança moralmente fraca e mal alimentada veria uma criança sem forças para ir até ela, fazer-lhe confidências ou obedecer-lhe; e, se o conseguisse, seria apenas debilmente ou com penosos esforços.
Por estranho que pareça, é essa, no entanto, a nossa maneira de tratar a criança quando queremos ensinar-lhe as manifestações da riqueza interior sem antes lhe dar essa riqueza, como se essas manifestações de riqueza interior fossem coisas que se pudessem aprender de cor.
Procuremos, ao contrário, os caminhos pelos quais as forças interiores se desenvolvem e, como consequência, veremos desabrochar essas forças em abundância.
À medida que esses fenômenos se repetem e que se desenvolvem essa calma e esse repouso, vê-se aparecer outro fenômeno complexo, que se pode chamar a disciplina das crianças. Aquelas professoras a quem a experiência ensinou esse ponto aprenderam, na realidade, a língua das nossas escolas. É assim que uma professora perguntará a outra: "Como anda a sua classe? Já está ordenada?". E a outra talvez responda: "Não, ainda não". Também se poderia ouvir uma observação deste gênero: "Lembra-se daquela criança que era tão desordenada? Agora ela anda na ordem". Quando as professoras se exprimem assim, é que sabem tudo o que tinham de aprender. Todo o resto não passa de consequências. Assim que o fenômeno nasce, vai crescendo.
As crianças em que ele se produz encontram-se então no caminho do desenvolvimento psíquico natural; pouco a pouco tornam-se grandes trabalhadoras, a ponto de lhes ser impossível ficar inativas. Poderemos vê-las, quando esperam alguém, não ficar ociosas; põem-se a um trabalho qualquer para esperar com paciência. O trabalho tornou-se então uma atitude na criança.
Na continuação desse desenvolvimento, o período que chamamos de falsa fadiga diminui cada vez mais, enquanto a linha de repouso se alonga.
Esse repouso sui generis é um repouso ativo. Trata-se sem dúvida, ainda aqui, de um trabalho interior que já não tem relação com objeto algum.
Voltemos à nossa comparação do jantar. Há o período da digestão, que pertence ao mesmo ato que a nutrição, mas que se realiza no interior, já sem relação alguma com os pratos. Há também uma digestão moral, que apresenta na criança características particulares de atividade, que são as da pessoa que pensa; essa atividade tem muita semelhança com a das pessoas em contemplação. A criança também contempla o seu ambiente, percebe os detalhes mais minuciosos e parece fazer descobertas.
A concentração compreende, portanto, três períodos: o período preparatório; o do Grande Trabalho, que está em relação com um objeto exterior; e o terceiro, que é todo interior, todo júbilo e luz, que irradia sobre o ambiente e que, como um refletor, ilumina os objetos que passavam despercebidos.
Só na vida espiritual cristã encontramos fenômenos semelhantes; assim, quando se diz: "Têm olhos e não veem, têm ouvidos e não ouvem". Para abrir uns e outros, não são só os sentidos que devem agir! Esses sentidos tornaram-se, pois, cada vez mais os instrumentos do espírito.
Encontra-se igualmente uma espécie de paralelo nas coisas puramente intelectuais. As pessoas pouco cultivadas, ao sair de um salão, tropeçarão em outras pessoas ou em objetos que não viram; agravam sua falta com múltiplas desculpas, confessando assim a sua inferioridade; uma desculpa comum é: "Perdão, eu não tinha visto...". Um cego agiria do mesmo modo; pisaria os pés dos vizinhos, esbarraria nos móveis e também poderia dizer-lhes: "Perdão". Não cremos, contudo, que a educação dos cegos consista em ensinar-lhes a pedir desculpas; mas, paralelamente, quase nos pareceria que isso devesse bastar para a criança normal.
Passemos a outro fenômeno singular: a criança torna-se de uma obediência admirável. Ficamos maravilhados, já que não lhe ensinamos isso. Além disso, não poderíamos sequer imaginar uma paciência tão maravilhosa quanto a que notamos nas crianças.
Imaginem uma pessoa que não consegue manter o equilíbrio, que não consegue ficar de pé, não ousa servir-se dos braços com medo de cair; só avança cambaleando. Assim que tiver aprendido a manter-se em equilíbrio, saltará, andará, se curvará para a direita e para a esquerda. O mesmo se dá com a vida psíquica. Imaginem uma mentalidade desequilibrada, incapaz de se fixar, de conservar a atitude ditada pela vontade. O indivíduo afligido por tal mentalidade poderá dobrar-se à vontade alheia sem correr o risco de falhar? Como poderia obedecer à vontade alheia, se é incapaz de se submeter à sua própria? A obediência é uma espécie de agilidade do espírito que tem como apoio o equilíbrio interior. Essa obediência que brota da força contém ainda em si as possibilidades mais evidentes daquilo que se chamou "a adaptação ao ambiente". Para se adaptar a um meio, todos os biólogos o ensinam, é preciso ser forte. Os religiosos também o sabem. Para ser obediente, é preciso ser forte e equilibrado. Chegara-se a reconhecer esses fatos na vida religiosa, mas nunca se pensara em ocupar-se, no campo da inteligência, de um fenômeno semelhante. Pois bem: assim como, em biologia, é a espécie robusta que pode adaptar-se às circunstâncias, assim também a inteligência vigorosa será obediente. É mais ou menos o mesmo fenômeno. Se uma grande riqueza nos permite fazer tudo, uma grande força nos permite fazer tudo o que nos mandam.
Pois bem, por esse meio pacífico e paciente de se desenvolver segundo as leis da natureza, pela concentração da atenção, pela contemplação, que é, poder-se-ia dizer, a digestão da concentração, o indivíduo se fortalece e, quando se torna forte, chega a fazer mais do que ousaríamos pedir-lhe.
Vejam agora tudo o que a criança pequena conseguiu fazer com a sua atividade fundamental: a concentração da atenção e a contemplação; daí saiu todo o resto: tornou-se senhora do seu corpo, dos seus músculos, dos seus movimentos voluntários; pode acompanhá-los e dirigi-los com atenção. Vimos até que ponto a criança pode dominar os seus movimentos, já que pode imobilizar-se no mais perfeito silêncio; nela, o domínio de si supera muitas vezes o dos adultos. Tampouco se deve esquecer o mecanismo desse desenvolvimento, o eloquente controle dos erros, ao mesmo tempo que o poder exercido pelo ambiente. Somando essas coisas umas às outras, encontraremos ainda aqui uma semelhança impressionante com a vida religiosa: um ambiente preparado, uma vida de paz, a concentração necessária à meditação, a contemplação, o domínio sobre o corpo, o silêncio, exercícios uniformes repetidos dia após dia. Os religiosos foram aqueles que prepararam os maiores heróis, os santos, aqueles que estão prontos para todos os combates, combates contra a tentação, resistência no martírio. Não foi com discursos inflamados que se prepararam tais heróis, nem tocando a trombeta do combate; ao contrário, percorreu-se o caminho silencioso da formação.
Se bastasse dar o que falta por meio de exortações, de ameaças ou de ordens, por que não se experimenta esse tratamento para devolver a vista aos cegos? Seria um milagre, e não está no poder do homem fazê-lo. E, no entanto, os educadores ainda sofrem de semelhantes ilusões. O que é necessário são exercícios capazes de tornar forte. Que fizeram os religiosos? Permaneceram naquele ambiente preparado, dia após dia; os mesmos princípios podem repetir-se para toda a vida psíquica, para a educação do caráter. Se o homem é uma unidade, único deve ser o seu caminho. Na vida interior também há uma unidade.
A comparação deve ser evidente, pois ninguém há de supor que alguma vez me tenha passado pela cabeça conduzir a educação de crianças pequenas de três anos seguindo o exemplo dos monges, dos heróis da santidade. Não. Adquiri a minha experiência por um caminho totalmente diferente. Foram as crianças em liberdade que me revelaram certas leis da vida interior, leis gerais e que não são exclusivas dos religiosos. Foram as crianças que me desvendaram o caminho estreito do desenvolvimento da vida que se furta à matéria e que está em nós. Foram as crianças que buscaram espontaneamente e encontraram por instinto o caminho da força; a concentração é o centro do desenvolvimento. Com efeito, toda força, para se tornar força motriz, deve ser canalizada. A água de uma inundação seca ao sol, mas a água canalizada aquece-se ao sol e torna-se força motriz. Eis por que temos a convicção de poder afirmar que é inútil ensinar os princípios da força; o que é preciso fazer são homens fortes.
[1] Conferência proferida pela Senhora Montessori em Bruxelas e publicada em "La Femme Belge".
Tradução integral feita com apoio de inteligência artificial a partir de fac-símile digital (Atlante Montessori / Opera Nazionale Montessori).
