Birra, desobediência, medo do escuro, mentira, briga por brinquedo, atenção que não para em nada. A lista é conhecida de quem convive com crianças pequenas e costuma vir com uma explicação pronta: criança é assim mesmo. Maria Montessori contestou essa explicação no editorial com que abriu, em 1924, o primeiro número da revista The Call of Education. Chama-se O chamado e saiu no mesmo fascículo em três línguas: italiano, inglês e francês.
O título vale para a revista inteira. Montessori queria reunir o trabalho disperso de quem acompanhava as crianças nas escolas montessorianas e fazer dele um chamado a todos os que sentiam as dificuldades daquele momento. A razão vem numa frase: “Entre tantas tentativas de conduzir a sociedade à reconstrução, falta ainda aquela que se dirige diretamente à alma humana.” O que a autoriza a falar assim é o que diz ter visto nas suas escolas: “uma nova criança”, que aparece quando se retiram os obstáculos ao seu desenvolvimento. Diante dela, a criança que todos conheciam passa a ser o primeiro estágio de um homem que desenvolveu a inteligência mecânica, sacrificou o próprio desenvolvimento ao do ambiente e deixou inertes as forças vitais. A imagem é a do coral, rico e precioso, elaborado por um pequeno ser mole que acaba prisioneiro do seu trabalho.
A segunda parte traz a tese que mais interessa a quem educa. Os traços tidos como normais da infância são, na grande maioria, manifestações de defesa ou de “decadência espiritual”, surgidas porque o ambiente não ofereceu o que as energias mais profundas pediam. Ela enumera: a atenção instável, a impossibilidade de um exercício constante, o abandono ao jogo e ao ócio dos brinquedos, o fantasiar vão, os movimentos desordenados que abrem caminho aos acessos de raiva; e, no plano moral, o egoísmo, o apego às coisas que leva à briga, a mentira, o medo do escuro, a timidez, a desobediência, os caprichos. Tudo isso é natural só porque a defesa é natural, e pertence “à superfície da alma”.
Duas comparações explicam o mecanismo. A primeira é a do mar: ventos contrários levantam uma tempestade na superfície, e o esforço gasto ali, em defesa inútil, deixa inertes as energias do fundo. A segunda é a da sensitiva, a planta que recolhe as folhas ao ser tocada. A criança não combate os obstáculos de modo consciente; ela esconde as profundezas do seu espírito, recobrindo-as. O resultado é dito sem rodeios: “Tudo quanto o homem tem de belo e de grande permanece assim reprimido”, como uma reserva que talvez fique escondida a vida inteira.
Se é assim, o problema da educação passa a ser oferecer à criança “um ambiente livre de obstáculos”, a começar pelo principal deles, a força do adulto, que nas suas escolas se transforma em guia para a independência. Os traços de defesa desaparecem então todos juntos, como as ondas quando os ventos se acalmam, e as profundezas da alma começam a se manifestar. Montessori aponta a quem isso deveria interessar: aos cientistas, que teriam na escola um campo experimental; aos psicanalistas, como higiene das doenças da alma; e aos que têm vida espiritual, que verão ali uma obra de amor, um abrigo para a criança “incompreendida na sua parte divina”.
O editorial termina pelo que qualquer observador pode ver: uma escola simples, em que as crianças trabalham sem se cansar e sem que a professora intervenha para ensinar ou corrigir, porque “a criança se ligou a uma fonte diretiva interior”. Desse fato ela tira a consequência social que justifica o título. O homem que se interessa pelo predomínio da sua natureza superior entrou numa via de paz, que em vão se buscará no mundo enquanto os homens se interessarem pelo predomínio de uns sobre os outros.
Em 1932, o texto voltou a sair, em italiano, no primeiro número da revista Montessori, de Roma, com outro título: Nova mobilização. É o mesmo texto, na mesma ordem, com cortes. Saiu o parágrafo inicial sobre o título do periódico, a frase de abertura passou a falar em “nosso movimento”, e caíram a imagem do coral e as menções à falsa ajuda do adulto que faz tudo pela criança e aos acessos de raiva. Os parágrafos longos foram divididos e a última frase ganhou um ponto de exclamação. A íntegra abaixo é a de 1924, a mais completa.
Para quem convive com crianças, o editorial propõe trocar a pergunta. Diante do medo, da mentira ou da desobediência, em vez de procurar o defeito na criança, procurar de que ela se defende e o que, no ambiente, pode ser tirado do caminho. A seguir, o texto completo de 1924.
O texto de Maria Montessori, na íntegra
Fonte: The Call of Education. Psycho-pedagogical Journal, 1924, Vol. I, n. 1, p. 3–17
Título original: „La Chiamata" (italiano, p. 3–7); „The Call" (inglês, trad. Sheila Radice, p. 8–12); „L'Appel" (francês, p. 12–17) (italiano (editorial publicado em três línguas no mesmo fascículo; itens 02, 03 e 04 do sumário))
"O chamado"
Dr. MARIA MONTESSORI
O título escolhido para o periódico que hoje apresentamos ao público indica o nosso propósito. Ele não é apenas a organização de inumeráveis forças dispersas por todas as partes do mundo, isto é, as forças dos apóstolos da nossa ideia; nem apenas o meio de ajudar as professoras que dirigem escolas montessorianas sem preparação suficiente. O nosso objetivo vai além, enfim, da utilidade do movimento educativo que há mais de quinze anos vem se desenvolvendo.
Concentrando num periódico os trabalhos dispersos de tantos que seguem, servem e observam a alma das crianças tornadas livres pelo nosso método de educação, queremos fazer deles uma força viva, que represente um chamado a todos os que sentem hoje as dificuldades do momento que atravessamos.
Entre tantas tentativas de conduzir a sociedade à reconstrução, falta ainda aquela que se dirige diretamente à alma humana.
Uma possibilidade nova de libertar a alma da criança dos obstáculos que lhe impedem o pleno desenvolvimento permitiu-nos ver "o homem" sob um aspecto diverso daquele até agora conhecido; vimos, nas nossas escolas, "uma nova criança", que aparece como a solução espontânea de profundos problemas com repercussão sobre a saúde mental e sobre a formação do caráter. Os resultados que se realizaram repetidamente, com ampla e longa experiência, aplicando o mesmo método educativo a crianças de quase todas as raças humanas que têm alguma conexão com a nossa civilização, são uma revelação ou, se se quiser, um ensinamento que, pela sua importância, extravasa os limites da escola. Demonstramos os erros da educação passada, tornando possível a educação nova; e não pode existir prova mais demonstrativa do erro do que ver-lhe em ato a correção e constatar-lhe os resultados.
Sobre a psicologia da criança difundira-se uma enorme quantidade de interpretações errôneas em toda classe de pessoas, cultas e incultas: representava-se com elas a infância do "homem falido" nas finalidades para as quais fora criado: o homem de escassa vontade, complicado na sua consciência, desconhecido de si mesmo, incapaz de exprimir-se, inadequado ao esforço habitual, agitado e sofredor, pronto a ser arrastado por uma força maior do que ele, sem distinguir o bem do mal, isto é, as vias da salvação das da perdição. O homem de hoje tem uma profunda ilusão de civilização e de força, mas está verdadeiramente subjugado pelo ambiente que evoluiu; e o homem projeta sobre esse ambiente a ilusão que vem do vazio que restou nele próprio. Ele desenvolveu muito a inteligência mecânica ao criar os objetos, e se compraz em vê-los agir em seu lugar; mas deixou na inércia as forças vitais fundamentais. A inércia destruidora das energias criadoras repeliu realmente os homens de hoje para os graus obscuros e múltiplos da interrupção do desenvolvimento. As criações mecânicas da inteligência, desligada de suas fontes iluminadoras, construíram enormes obstáculos ao longo do caminho da vida superior. É como uma rica, brilhante e preciosa planta de coral de inumeráveis ramificações: mas o belo coral é elaborado a partir da superfície de um pequeno ser mole e escondido, feito prisioneiro pelo seu próprio trabalho. A criança até agora conhecida é o primeiro estágio daquele tipo de homem que sacrificou o próprio desenvolvimento ao do ambiente. A sua história é, de fato, para quem pode compreendê-la à luz que vem da nossa experiência, a história de um sacrifício lento e continuado das energias interiores do homem ao triunfo das coisas exteriores.
Da educação espera-se uma completa revolução que mude a posição do homem: o espírito criador da individualidade humana deve ascender como um dominador na escala dos valores.
Os caracteres da "velha criança", conhecidos como os caracteres infantis normais, são em grande maioria manifestações de "defesa" ou expressões de "decadência espiritual" sobrevinda porque o ambiente não ofereceu os meios fundamentalmente necessários para desenvolver as energias mais profundas. Os biólogos estudaram os caracteres de defesa das plantas e dos animais, e até mesmo dos tecidos orgânicos, mas o campo ainda está quase inexplorado no que toca à psicologia infantil normal. Os caracteres defensivos e decadentes podem comparar-se à tempestade superficial das águas do mar levantadas por ventos contrários. Isto é: existem nas crianças manifestações superficiais que estão em relação com as dificuldades, "os obstáculos", apresentados por um ambiente inadequado. O "esforço", assim disperso na superfície em inútil defesa, torna inertes as energias profundas, que estariam prontas a desenvolver aquela atividade formativa necessária ao esplêndido desenvolvimento espiritual do homem; e faz decair na inércia as próprias fontes do poder humano. Quase todas essas manifestações superficiais provocadas são hoje conhecidas como caracteres da mentalidade infantil; e assim a inteligência fica abandonada a si mesma na época mais delicada do crescimento, quando condições externas adequadas poderiam permitir a sua forte construção. A instabilidade da atenção, a impossibilidade de um exercício constante que seja verdadeiro trabalho, e portanto o abandono ao jogo e ao ócio dos brinquedos; o fantasiar vão que enche de ilusão a mente imatura e tenra e faz a criança pequena construir o "belo mundo da sua assim chamada imaginação"; a incapacidade de coordenar os movimentos para fins úteis (exagerada pela falsa ajuda do adulto que faz tudo pela criança), e que afunda a preciosa energia vital da infância na desordem dos movimentos, abrindo caminho a explosões convulsivas (acessos de raiva) — constituem hoje, em geral, o "quadro da vida inicial" do homem.
Englobados nessas características da inteligência estão os caracteres morais: o egoísmo, a paixão excessiva pela propriedade de coisas materiais, que leva as crianças à briga e à ofensa recíproca; a prevalência das necessidades da vida vegetativa, a mentira, o medo do escuro, a timidez, a desobediência, os caprichos. Todas essas manifestações são "naturais e normais" só porque é natural e normal a defesa. Mas pertencem, sem exceção, "à superfície da alma". A defesa contra os obstáculos não é direta, e por isso o caráter defensivo das manifestações infantis permaneceu por tanto tempo obscuro ou despercebido. A criança não é um combatente consciente, que vise voluntariamente a superar os obstáculos. Ela tem, inconscientemente, um instinto supremo de defesa — defende as profundezas do seu espírito e as "esconde" recobrindo-as, como uma sensitiva recolhe as folhinhas a um toque externo. Tudo quanto o homem tem de belo e de grande permanece assim reprimido, como uma reserva que talvez lhe fique escondida por toda a vida. Assim a personalidade é e permanece uma incógnita.
Considerando a educação sob esse aspecto, o seu problema reside em oferecer à alma infantil "um ambiente livre de obstáculos". Os caracteres de defesa desaparecem então todos juntos, como as numerosas ondas do mar agitado cessam quando se acalmam os ventos contrários. E as profundezas da alma começam a manifestar-se.
A escola tornou-se assim, hoje, para nós, aquilo que alguns cientistas modernos poderiam chamar um "campo experimental" de cultivo das atividades infantis superiores. Nesse campo são removidos os obstáculos maiores que hoje, em geral, deprimem a alma das crianças. Quando as manifestações mais profundas e escondidas começam a revelar-se, elas nos indicam indiretamente obstáculos cada vez mais sutis e condições de vida cada vez mais precisas. Nessa nova interpretação psicológica, e na pesquisa prática de condições de ambiente cada vez mais perfeitas, pode consistir o maior interesse dos cientistas positivistas.
Os cultores da psicanálise poderiam interessar-se (como alguns deles já fazem) em penetrar até as origens aqueles fenômenos patológicos que eles vencem em seus pacientes, trazendo dos mistérios do inconsciente as causas latentes de tantas fraquezas humanas e abrindo-lhes as vias para a consciência aberta. As nossas escolas, que permitem à criança "a livre escolha" e a "livre expressão" num ambiente livre de obstáculos, onde o principal obstáculo, isto é, a força do adulto, é transformado num guia para alcançar a independência — devem interessar aos cientistas como a higiene prática das "doenças da alma".
Aqueles, depois, que sentiram em si mesmos a vida espiritual e o seu valor — e que já são práticos e praticantes — na distinção entre as duas naturezas do homem e na busca da natureza superior, verão nas nossas escolas uma obra de amor. O amor compreende, para além das aparências externas, necessidades imperiosas e fundamentais, difíceis de exprimir — e das quais, no entanto, depende toda a vida. O amor nos conduz a construir "o abrigo" para esta criança incompreendida na sua parte divina, para deixar livres as vias do seu desenvolvimento espiritual.
Mas mesmo quem se detém na mais superficial observação dos fatos, e vê uma escola harmoniosa na sua simplicidade, onde as crianças trabalham sem se cansar — fortalecendo visivelmente o seu caráter —, sem que a professora intervenha para ensinar ou corrigir, deve ser tocado pelo fato novo de que a criança se ligou a uma fonte diretiva interior — em vez de permanecer presa à vontade do professor que a empurra para a frente. Este é o fato novo, que pode fazer refletir também sobre a possibilidade prática de uma reforma social. O homem que "se interessa pelo predomínio da sua natureza superior" sobre a natureza inferior — entrou numa via de paz, que em vão se buscará no mundo enquanto os homens se interessarem pelo predomínio de uns sobre os outros.
Tradução integral feita com apoio de inteligência artificial a partir de fac-símile digital (Atlante Montessori / Opera Nazionale Montessori).
