A criança de dois anos diz uma palavra, o adulto não entende, ela repete mais alto e em pouco tempo está chorando. Visto de fora, parece manha. Maria Montessori contou várias cenas assim numa conferência do seu Curso Internacional de Formação, em Londres, em 1923, e em todas a criança estava dizendo algo preciso, que os adultos demoraram a enxergar. As notas dessa conferência saíram em 1924, em inglês e em francês, no primeiro número da revista The Call of Education.
As primeiras histórias tratam do poder de observação. Uma criança de menos de dois anos vê num livro uma ilustração de Jesus rodeado de crianças, ouve a explicação e, quando viram a página, diz “dormir”. Ninguém dá atenção, ela se agita; voltam a página e percebem que os olhos de Jesus, voltados para baixo, parecem mesmo fechados. Diante de uma gravura da Escada de Jacó, em que a escada e as asas dos anjos sobressaem, o menino aponta a figura de Jacó adormecido num canto escuro, de quem ninguém tinha falado. A atenção da criança, nota Montessori, ia por conta própria, independente da explicação.
Vêm depois a associação de ideias e a memória. A criança olha uma gravura da Transfiguração, diz “coelho” e ergue o coelhinho de coral que traz ao pescoço: num canto muito escuro havia uma criança segurando um coelho. Ao achar uma pinha num bosque, diz o nome de uma babá que partira sete meses antes e que costumava abrir pinhas para ela. Dois irmãos procuram pássaros num livro sem figuras porque ele está na prateleira onde ficavam os livros de pássaros. E quem olhou um livro quer revê-lo no mesmo lugar, na mesma cadeira, com as mesmas pessoas.
Dessas cenas ela tira uma primeira conclusão: há na criança um grande trabalho interior, que começa antes das palavras, e uma observação aguda, mas diferente da nossa. Por isso, diz, “não nos cabe explicar as coisas à criança”; cabe dar-lhe oportunidades de observar segundo as suas capacidades.
A segunda metade da conferência trata de outra necessidade dessa idade. O desenvolvimento interior, diz Montessori, se dá em ciclos, e para completá-los a criança precisa de certa “fixidez no seu ambiente”. Uma criança carregava objetos de uma pessoa sentada numa poltrona até uma mesa, passando por outra pessoa sentada no sofá. Quando esta se levantou, a criança foi buscá-la pela mão e a fez sentar de novo. Quando a da poltrona se levantou e voltou a sentar na poltrona errada, a criança pareceu confusa e corrigiu: “Não, esta cadeira”. Só então continuou, até o ciclo se completar.
Outros exemplos vão na mesma direção. A menina de dois anos e meio que, enquanto os outros marchavam sobre a linha, saía dela para pôr no lugar as cadeiras, o giz e as flores. O bebê de dois anos que não deixou a professora de música largar a capa e o chapéu numa cadeira e a levou até os ganchos. E a criança que segue com afeto a mãe doente até a cama, mas murmura “Mamãe — cadeira”, dividida entre o sentimento por ela e a necessidade de tê-la no mesmo lugar até terminar o que fazia.
A última história volta ao começo. Um menino ergue uma semente de uva e diz “balão”; ninguém entende, ele se agita, até que joga a semente para o alto e os adultos percebem a semelhança de forma. Montessori comenta: “A criança não se contenta em exprimir-se: precisa ser compreendida, sentir a resposta dos outros.” Noutra ocasião, o mesmo menino repetia “ovo” numa sala onde não havia ovos, e só riu de alegria quando lhe desenharam no papel a forma oval que vira outras crianças traçarem na véspera.
O fecho da conferência diz o que cabe a quem está perto. A criança não precisa de nós para observar, lembrar ou exprimir-se; precisa que respeitemos os seus ciclos, que nos esforcemos por compreendê-la, o que por si já ajuda o desenvolvimento da sua vida interior, e que atendamos ao seu desejo de ordem, sem medo de virar escravos dele. A comparação é com a mãe que dá leite ao bebê sem se preocupar com os dentes que virão: servir à criança no momento em que ela está é o que a prepara para o seguinte. Vale ler com uma pergunta guardada para a próxima vez em que uma palavra ou uma exigência parecer sem sentido: o que ela viu que eu não vi? A seguir, o texto completo.
O texto de Maria Montessori, na íntegra
Fonte: The Call of Education. Psycho-pedagogical Journal, 1924, Vol. I, n. 1, p. 41–54 (com duas lâminas sem numeração entre as p. 48 e 49)
Título original: Dr. Montessori's study of very little children (inglês, p. 48–54); L'Observation des tout-petits (francês, p. 41–48) (inglês (com versão francesa publicada no mesmo fascículo; itens 10 e 11 do sumário))
O estudo das crianças bem pequenas, pela Dra. Montessori
Notas de uma conferência proferida pela Dra. Montessori durante o seu Curso Internacional de Formação, Londres, 1923.
Permitam-me contar-lhes algumas anedotas que mostrarão que mesmo as crianças bem pequenas têm uma vida psíquica que não levamos suficientemente em consideração. Elas nos mostrarão, também, que o nosso trabalho como educadores consiste menos em dar um conteúdo à mente do que em ajudar a criança a exprimir-se. As crianças pequenas tendem a exprimir-se não só pela linguagem, mas por todos os meios que lhes são acessíveis; e, mesmo antes que a linguagem se tenha desenvolvido, elas têm uma vida psíquica marcada, que é da maior importância.
As primeiras anedotas nos mostram que mesmo a criança bem pequena tem um agudo poder de observação. Mostrava-se a uma criança de menos de dois anos um livro de belas ilustrações. Uma delas representava Jesus rodeado de crianças. Deram-se explicações consideradas adequadas à sua idade e, quando julgadas suficientes, virou-se a página. A criança disse: "dormir". A princípio não se prestou atenção a essa palavra, mas a criança ficou agitada. Voltando-se a página, viu-se que os olhos de Jesus realmente pareciam fechados enquanto ele olhava para baixo, para as crianças. Portanto, independentemente da explicação, a atenção da criança fora atraída por esse fato.
Outra vez, mostrava-se uma gravura da Escada de Jacó. A escada e as asas dos anjos sobressaíam, luminosas, enquanto a figura de Jacó, adormecido na escuridão de um canto inferior, mal se notava; tanto que ele nem fora mencionado nas explicações. Ao virar-se a página, porém, o menininho disse: "Criança dormindo", e apontou para a figura de Jacó.
Um dia, uma senhora contava a história de "Little Black Sambo" (O pequeno Sambo negro) a alguns outros adultos, estando presente a criança pequena. A história tem um final alegre — os tigres brigam pelo seu casaquinho azul enquanto o pequeno Sambo volta para casa. Mas a criança, que estivera ouvindo, disse: "Chorar". Parecia não haver conexão; mas, não sendo compreendida, ela ficou agitada, e evidentemente tentava exprimir-se, embora sem sucesso. Foi-se buscar o livro, e viu-se que ele continha mais uma gravura, repetição da que estava na capa, a saber, uma criança chorando.
Outro fato interessante é que crianças tão pequenas assim demonstrem uma associação espontânea de ideias. A essa criança mostrou-se uma gravura da Transfiguração. Ela disse: "Coelho", e ergueu um coelhinho de coral que trazia numa corrente ao pescoço. Pensamos a princípio que não tivesse prestado atenção à gravura, mas a sua repetição ansiosa e o seu modo excitado nos fizeram olhar mais de perto, e vimos então, num canto muito escuro, a pequena figura de uma criança segurando um coelho. Um dia chegaram juntos, para ela, um disco de gramofone e um lencinho. No dia seguinte, viu de novo o lencinho, olhou-o e disse: "música". Passeando num bosque, encontrou uma vez uma pinha. De repente disse o nome de uma babá que partira sete meses antes e de quem aparentemente se esquecera. Essa babá costumava levá-la a um pinheiral e abrir-lhe as pinhas. — Outro fato ainda, do máximo interesse, é a memória do lugar. Certa prateleira, embaixo, na biblioteca, continha livros com gravuras de pássaros. Um menininho e sua irmã costumavam encontrá-los ali. Um dia, a título de experiência, pusemos no lugar um livro sem ilustrações. As crianças foram buscá-lo e, quando lhes dissemos que ele não continha gravuras, não quiseram acreditar em nós, e insistiram em virar todas as páginas para achar os pássaros. Mais estranho ainda: se as crianças pequenas estiveram olhando certo livro, lembram-se do lugar que ocupavam, da cadeira que usaram, das pessoas que lhes mostraram as gravuras; e, quando lhes mostram o livro de novo, querem que todas essas condições sejam reproduzidas. A sua memória das coisas, e do que aconteceu, é muito precisa, mesmo antes que possam exprimi-la pela linguagem. Uma criança que ainda não sabia falar assistiu uma vez a uma história contada a crianças mais velhas. Ninguém pensava que estivesse ouvindo, mas algum tempo depois, quando já podia dizer algumas palavras, aludiu a essa história e insistiu em que fosse repetida, de preferência a qualquer outra. A memória da sequência também é nítida. Mostrou-se, num livro, uma gravura da Natividade. A criança disse: "Água", embora não se visse água alguma na gravura. Mas na página seguinte havia um Batismo. Evidentemente ela se lembrara da sequência.
Em certo ponto do desenvolvimento surge o poder de expressão motora. Uma criança pequena olhou algumas gravuras por bastante tempo. De repente começou a dançar e a pular. No alto da página havia uma gravura de pessoas dançando. Um momento depois, foi até a escada e disse: "Homem — subir — escada". No livro havia uma gravura de um homem subindo uma escada. Depois trepou numa poltrona. "Homem — subir — cavalo". Havia uma gravura de um homem a cavalo.
Essas observações parecem mostrar que há na criança um grande trabalho interior. Ela se exprime como pode, não só por palavras mas também por movimentos; e, tão logo aprende algumas palavras, usa-as para exprimir coisas que aconteceram antes mesmo de conhecer as palavras. Mostra aguda observação, mas diferente da nossa. Portanto, não nos cabe explicar as coisas à criança; devemos, sim, dar-lhe oportunidades de observar segundo as suas capacidades.
Uma observação de grande interesse é que algo de rítmico caracteriza o desenvolvimento interior da criança. Os movimentos da sua vida interior se dão, por assim dizer, em ciclos, que é importante que ela siga para o seu desenvolvimento. E, como observei em outro lugar, a criança, para realizar esse ciclo rítmico de atividade, precisa de certa fixidez no seu ambiente. Isso é muito fundamental. A criança precisa de um ambiente que lhe corresponda de modo particular. Pode ser até necessário que nos prestemos aos seus propósitos, pois, para servir à criança, devemos dar-lhe os meios de que necessita. Uma boa ilustração é a seguinte. Já mencionei, em outra conferência, o interesse da criança em simplesmente carregar objetos de um lugar para outro. Certas condições são necessárias para que essa atividade se manifeste. Estes fatos ocorreram numa sala grande, num canto distante da qual outras pessoas estavam ocupadas em fazer exercícios acompanhados de música tocada ao piano. No nosso canto havia um sofá e, perto dele, duas poltronas e uma mesa. A criança carregava objetos de uma pessoa sentada numa das poltronas para a mesa, passando, no caminho, por uma segunda pessoa sentada no sofá. De cada vez que passava, vinha buscar a aprovação dessa pessoa antes de continuar.
Pouco depois, essa pessoa levantou-se e foi embora. A criança não notou até chegar ao lugar que ela ocupara; mas então olhou em volta, foi até ela e, tomando-a pela mão, obrigou-a a sentar-se de novo no sofá antes de prosseguir no seu exercício. Para ver o que aconteceria, a pessoa da poltrona levantou-se então. Mas isso não podia ser. Quando a criança chegou até ela e viu, insistiu em que se sentasse de novo. Ela se sentou outra vez, mas na poltrona errada. A criança pareceu confusa, como se tentasse lembrar-se, e disse então: "Não, esta cadeira". Satisfeita, continuou a carregar os objetos até que o seu "ciclo interior" se completasse.
Eis algo muito digno de atenção. As crianças nos têm mostrado frequentemente essa necessidade — eu diria quase uma necessidade característica desta idade — de que as pessoas ou as coisas ao seu redor permaneçam em posições definidas por certo período de tempo. Os que fizeram o meu último curso aqui em Londres talvez se lembrem de uma menininha de dois anos e meio que, enquanto os outros marchavam sobre a linha, e só pensavam nisso, notava tudo o que estava fora do lugar na sala — as cadeiras, o giz, as flores etc. —, e não parava de sair da linha para recolocá-los, voltando depois à sua marcha. Numa escola de San Francisco, uma criancinha de pouco mais de dois anos mantinha a sala inteira em perfeita ordem. Às vezes isso exigia pôr todas as cadeiras contra a parede. Havia uma cadeira grande diante da qual ela hesitou um momento; depois pareceu lembrar-se do seu lugar particular e a pôs lá. Parece que a criança, nesse período formativo, precisa ter fixidez no seu ambiente para obter dele uma ideia clara e para encontrar orientação.
A professora de música entrou uma vez e, pondo às pressas a capa e o chapéu numa cadeira, começou a tocar, pensando que as crianças responderiam como de costume. Mas um bebê de dois anos protestou: "Não. Chapéu aqui não". Para contentar a criança, e também por interesse, ela lhe pediu que a guiasse. Seguindo-a até o corredor, perguntou se uma cadeira do vestíbulo serviria. "Não, nos ganchos!", disse ele com decisão.
A necessidade de ter as pessoas, ou as coisas, num lugar fixo pode até ser tão forte que entre em conflito com outros sentimentos e emoções. Uma criança de dois anos e meio sabia que a mãe estava sofrendo, sentada na sua poltrona, e tentava consolá-la trazendo-lhe várias coisas. Depois de algum tempo, a mãe, piorando, recolheu-se ao leito. A criança a seguiu com afeto, ciente da sua dor; mas, de pé junto à cama, murmurou: "Mamãe — cadeira", como se estivesse dividida entre duas emoções fortes: o seu sentimento por ela e a sua necessidade de tê-la no mesmo lugar, até terminar o que estava fazendo.
Uma última história, para mostrar a discrepância entre a riqueza da vida interior da criança e o pequeno número de palavras de que dispõe. Um menininho comia uvas, tendo aprendido a tirar a casca e as sementes. Erguendo uma semente, disse: "Balão". Ninguém entendeu o que queria dizer, e ele ficou agitado. A criança não se contenta em exprimir-se: precisa ser compreendida, sentir a resposta dos outros. Ele pegou a semente e jogou-a para o alto, dizendo: "Balão". Portanto, havia observado a semelhança de forma. Em outra ocasião, ouvimo-lo queixar-se ansiosamente, como se tentasse fazer-se entender pelas pessoas, sem conseguir. Tudo o que pudemos captar foi a palavra "ovo". Não havia ovos na sala. Na véspera, porém, ele vira algumas crianças desenharem a forma oval com o encaixe metálico do meu material. Pensamos que fosse isso o que ele queria. Mas, quando lhe trouxeram as peças, disse: "Não". Tentamos só a parte central. "Não". Depois a moldura. Com mais ênfase: "Não". Por fim desenhamos a figura numa folha de papel, como as crianças fazem na classe. A criança riu de alegria por ter sido compreendida.
O fato de todo esse trabalho interior — memória, associação, observação, expressão — certamente nos mostra um aspecto importante do nosso trabalho. A criança não precisa de nós para tornar-se observadora, para exprimir-se, para lembrar-se etc. A missão dos que estão perto dela não é ensinar-lhe essas coisas, mas ajudá-la no seu desenvolvimento; oferecendo-lhe, talvez, meios adequados para construir a sua mente, mas sempre respeitando as suas atividades. Deixemo-la livre para completar os seus ciclos de atividade, para seguir o ritmo da sua vida interior, esforçando-nos com todas as nossas forças por corresponder às suas necessidades e por compreender o que ela tenta exprimir. A sua percepção do nosso esforço para compreendê-la ajuda realmente o desenvolvimento da sua vida interior. Ela precisa não só de exprimir-se, mas de comunicar-se com os outros; e isso mesmo antes que a linguagem, o verdadeiro instrumento de comunicação, venha em seu auxílio. Prestemo-nos a essa alma que avança na sua própria construção, sem temer que a expressão própria da criança permaneça como a expressão própria do adulto. Não hesitemos em servir à criança nesse seu meticuloso desejo de ordem, por medo de nos tornarmos, mais tarde, seus escravos. Basta lembrar que a ordem não costuma ser considerada como tendo um lugar demasiado grande na vida da criança mais velha! Devemos acreditar nessas forças; simplesmente, e sem raciocínios elaborados, procurar atender às suas necessidades. Pois não é tentando levar a criança a ter as características do adulto, mas ajudando-a a aperfeiçoar-se no momento dado, que a tornamos capaz de vir a ser um adulto melhor. Dando-lhe leite no período certo, ajudamo-la a desenvolver os dentes no período seguinte. E assim como a mãe que nutre a criança com leite não se preocupa com que ela venha a ter dentes e a comer como um adulto, também a professora não precisa afligir-se com o futuro; mas apenas servir a essas tendências, que sofrem transformação no tempo próprio.
Tradução integral feita com apoio de inteligência artificial a partir de fac-símile digital (Atlante Montessori / Opera Nazionale Montessori).
