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Sobre a disciplina: Montessori e o que fazer quando a liberdade vira desordem

Por Equipe Escola Montessoriana · · 26 min de leitura

Criança escolhe um trabalho e o leva para o tapete, na sala Montessori

Quem resolve dar mais liberdade a uma criança pequena, em casa ou numa sala de aula, costuma levar um susto: suspende ordens, prêmios e castigos, oferece coisas interessantes, espera, e o que vem é bagunça. A tentação é concluir que a ideia não funciona. Maria Montessori escreveu sobre esse momento em 1924, num artigo de subtítulo Reflexões e conselhos, publicado pela revista The Call of Education em italiano e em tradução inglesa. Para ela, o princípio não é falso: “Entre a premissa teórica e o resultado falta a experiência prática”. O texto descreve o caminho da desordem à disciplina e o que a professora faz em cada trecho dele.

O texto de Maria Montessori, na íntegra

Fonte: The Call of Education. Psycho-pedagogical Journal, 1924, Vol. I, n. 3-4, p. 169–196
Título original: "Sulla Disciplina. Riflessioni e consigli" (italiano, p. 169–182); "On discipline. Reflections & Advice" (inglês, trad. Sheila Radice, p. 183–196) (italiano (o mesmo texto aparece no fascículo em inglês, itens 01 e 02 do sumário))

Sobre a disciplina

MARIA MONTESSORI

Reflexões e conselhos.

O problema surge diante da professora sem prática, mas cheia de entusiasmo e de confiança, à espera da disciplina "interior" que deverá nascer da pequena comunidade. Ela compreendeu e crê que as crianças devem ser livres na escolha de suas ocupações — e nunca devem ser interrompidas em sua "atividade espontânea". Não são permitidos nem ensinamentos, nem ameaças, nem prêmios, nem castigos. É preciso que a professora permaneça calada e imóvel, paciente na espera. — E assim ela faz. Põe-se de lado, pronta a reprimir a própria personalidade, para que se dê espaço "ao espírito infantil" de expandir-se livremente. Pôs à disposição dos pequeninos uma quantidade de material: talvez todo o material.

E eis que nasce uma desordem que cresce com o tempo e que pode chegar a um grau assustador.

Será então falso o princípio estudado?

Não é falso. Entre a premissa teórica e o resultado falta a experiência prática.

É nisso que as principiantes inexperientes precisam de um guia esclarecedor.

O mesmo acontece aos jovens médicos e a todos aqueles que, "preparados por ideias" — por "princípios" —, se veem sozinhos, face a face com os fenômenos da vida, mais misteriosos do que a incógnita que o matemático procura no seu problema.

Consideremos que o fenômeno da disciplina interior é um fato "ao qual se deve chegar"; não é um "fato inicial". Nós somos os "guias" no "caminho da disciplina". A disciplina surgirá somente quando a criança tiver concentrado a sua atenção sobre um objeto que a atrai e que se presta não só a um exercício aperfeiçoador — mas também ao controle do erro. — É nesses exercícios que se vai formando aquela maravilhosa "ordem" de toda a individualidade infantil, que torna as crianças calmas, radiantes de felicidade, ativas, inconscientes de si mesmas e, por isso, indiferentes tanto a elogios quanto a ganhos materiais. Os pequenos conquistadores de si mesmos e do mundo exterior são, verdadeiramente, "o homem triunfante" que nos surpreenderá como uma revelação sublime da alma divina que está em nós. A bela tarefa da professora é indicar o caminho para a perfeição, oferecer os meios para alcançá-la e depois remover os obstáculos, a começar por si mesma, que pode tornar-se o maior obstáculo de todos.

Se a disciplina fosse o fato "inicial", a nossa obra seria de fato inútil. Nesse caso, a criança deveria ter um instinto seguro e capaz de enfrentar todos os obstáculos. Mas a criança de três anos que se apresenta nas escolas é, ao contrário, um lutador que já está a ponto de ser vencido pela repressão e que desenvolveu formas de defesa que mascaram a sua natureza mais profunda.

Aquelas energias superiores, capazes de conduzi-la à paz da disciplina — e à divina "sabedoria" —, adormeceram, e fica desperto o ser superficial, que se esgota na descoordenação dos movimentos, das ideias errantes, e que procura "contradizer" ou "escapar" à opressão que o adulto lhe fez sofrer.

A sua alma já mascarada — faz pensar nas profecias lamentosas de Baruc: "Ouve os mandamentos da vida: qual é o motivo por que estás em terra inimiga e envelheces em país estrangeiro? Se tivesses andado nos caminhos de Deus, terias certamente vivido numa paz eterna . . . . . Os jovens viram a luz e habitaram sobre a terra, mas não conheceram o caminho da disciplina e não lhe compreenderam as direções, nem os seus filhos a abraçaram: ela afastou-se deles; dela não se ouviu mais palavra sobre a terra".

Mas a sabedoria e a disciplina estão prontas a despertar na alma da criança pequena: a repressão agiu nela, mas ainda não edificou. A nossa espera não será vã.

A escola deve dar ao espírito da criança a libertação e oferecer-lhe um campo de expansão. A professora deve lembrar, porém, que as reações de defesa e todos os caracteres inferiores que a criança adquiriu são também obstáculos à expansão da vida espiritual — e a criança deve libertar-se deles. Este é o ponto de partida da "educação". Se a professora ainda não sabe distinguir os atos impulsivos do movimento espontâneo que brota de um espírito calmo, a sua ação não dará fruto algum.

As raízes do saber da professora residem, portanto, nessa capacidade de distinguir "as atividades" — que parecem ambas "espontâneas", pois a criança as realiza voluntariamente, mas que têm significado oposto. Só depois de ter adquirido esse poder de discriminação é que a professora pode tornar-se "observadora" — e "guia". É uma preparação análoga à do médico: ele deve antes de tudo distinguir os fatos fisiológicos dos patológicos; se não é capaz de separar a saúde da doença — e se limita a distinguir um homem vivo de um homem morto —, não poderá avançar na distinção cada vez mais fina entre os vários fenômenos patológicos — isto é, ser-lhe-á impossível fazer jamais o diagnóstico de uma doença.

Essa base fundamental de distinção entre o "bem" e o "mal" é a lâmpada que é preciso levar na mão para não avançar às escuras pelo caminho oculto da perfeição e da disciplina.

É possível determinar na prática alguns caracteres, ou alguns "quadros", bastante claros e simples para ajudar também teoricamente a reconhecer os vários estágios pelos quais passa a alma infantil na sua ascensão rumo à disciplina?

É possível: e isso se torna pedra angular para a professora prática.

A criança no caos.

Consideremos a criança de três ou quatro anos de idade — ainda não tocada por aqueles fatos que edificam nela a disciplina interior. — Há três caracteres que existem juntos e que são fáceis de reconhecer, mesmo por quem deles teve apenas a mais simples descrição:

1. Os movimentos voluntários são desordenados. Não consideramos o fim a que tendem os movimentos, mas os movimentos em si mesmos: falta uma verdadeira coordenação. Esse sintoma — que um médico de doenças nervosas poderia apreciar mais do que um filósofo — tem um grande valor. O médico observa alguns fatos mínimos nos movimentos voluntários de um doente grave, por exemplo, de um paralítico nos primeiros estágios da paralisia progressiva. O médico sabe que "aqueles fatos mínimos" têm uma importância tão fundamental que neles baseia o seu diagnóstico muito mais do que nas formas de delírio ou nos atos de conduta social desregrada — que, no entanto, também compõem o grande quadro patológico da referida doença. Aquela criança pequena que "executa mal os seus movimentos" terá muitas outras manifestações ruidosas, como a desordem dos atos, a falta de compostura, os gritos, as caretas; mas tudo isso não tem verdadeiro valor. A "educação" que tende a "coordenar" delicadamente os movimentos finos fará, só com isso, desaparecer todo o quadro de desordem nos movimentos voluntários. Mais do que procurar "corrigir" as mil aplicações exteriores desse fato único, bastará que a professora ofereça um meio de desenvolvimento interessante, cujo uso leve a aperfeiçoar movimentos mínimos.

(Pousar um cubinho leve no centro de um quadrado etc.)

2. Outro caráter, que vai sempre unido ao precedente, é a dificuldade ou a incapacidade da criança de fixar a atenção em coisas reais. — A sua mente divaga, antes, pelos campos da fantasia. — A criança, manuseando indiferentemente pedrinhas ou folhas secas de um jardim, falará em preparar almoços suculentos, em pôr mesas magníficas, em fazer convites; — e talvez a sua imaginação progrida com a idade. — A mente se cansa, afastando-se cada vez mais da sua "função normal", tornando-se um instrumento inútil do espírito, que precisa desenvolvê-la para utilizar "a vida interior". Quantos acreditarão que tal esforço desagregador da personalidade é justamente aquilo que desenvolve a vida interior! Porque — dizem eles — é justamente a "vida interior" que cria — e fora dela não há matéria — ou há apenas uma sombra: como pedrinhas ou folhas secas.

Mas a vida interior se constrói com a unidade da personalidade — e com a orientação no mundo exterior — como base da vida fundamental. Aquela mente errante que se afasta da realidade — afasta-se da sua função normal, isto é, da sua saúde. Lá, no mundo para o qual ela se dirige, não pode haver controle do erro — nem coisa alguma que garanta a ordem nas ideias —: a atenção às coisas reais vai desaparecendo em suas possibilidades futuras. É uma distinção sutil — mas aquela aparente vida interior da imaginação — é uma tísica do órgão cuja função é essencial à vida do espírito. A professora que procure "atrair a atenção da criança" para alguma coisa real — tornando a realidade prática e atraente —, aquela que chegar a fazer a criança interessar-se por uma mesa de verdade a pôr, por um almoço de verdade a servir, chamará, como uma trombeta do juízo, a mente que se afastara dos caminhos seguros da sua saúde. E os movimentos finos coordenados, juntamente com a atenção chamada de volta à realidade, serão o único remédio necessário. Não é preciso corrigir uma a uma aquelas tantas aplicações, mais ou menos ruidosas, de um desvio único. Assim que se iniciou o poder de orientar a mente para coisas reais, a mente está conquistada, está sanada, e doravante funcionará normalmente.

3. O terceiro fato, concomitante com os outros dois, é uma propensão à imitação — que se torna cada vez mais pronta e mais rápida. Esse sinal de profunda fraqueza, que é um exagero de fatos normais nas crianças de dois anos — (a imitação das crianças muito pequenas é inteiramente diversa, e dela não se pode tratar nesta ocasião) —, está de acordo com uma vontade que não preparou os seus instrumentos nem os seus fins na vida real e segue a indicação alheia; a criança que ainda nem sequer penetrou no caminho da perfeição permanece como um ser sem guia, que segue a primeira coisa que lhe aparece.

Quem observa a criança de dois anos "que imita apenas certas coisas determinadas", as quais a iniciam no conhecimento da vida, logo será capaz de reconhecer a forma degenerativa da imitação de que falo aqui. Imitação de coisas que estão em relação com a desordem motora e com a instabilidade da mente: e que leva a alma da criança a descer, como que aos saltos, uma escada degradante.

Bastará que uma criança na classe cometa um ato de desordem ruidosa — como atirar-se ao chão rindo e gritando — e muitas, ou talvez todas as crianças, se atirarão, ainda mais barulhentamente, em torno dela. Todo ato incorreto se multiplica num grupo de crianças, ou talvez na classe inteira.

Essas "congregações", que se formam por uma imitação fulminante, criam a coletividade na desordem: quase o oposto da vida social, que é feita de ordem e de trabalho. A imitação propaga e exalta o defeito de um só indivíduo: representa o terreno de cultura, o "locus minoris resistentiae" onde a degeneração se enraíza.

Quanto mais essa espécie de degeneração se desenvolve, tanto mais difícil se torna a obediência a quem chama a alma a subir de novo às alturas.

Mas bastará fazer a criança entrar no caminho certo — e todas as consequências, as mais variadas, de um único erro se dissiparão.

O chamamento.

A professora que se visse dirigindo toda uma classe de crianças assim, não tendo trazido consigo senão a ideia basilar de "deixar livres" as crianças em suas expressões espontâneas e de oferecer os materiais de desenvolvimento, poderia encontrar-se numa situação angustiosa. O pequeno inferno que já nasceu nas almas infantis utilizaria o material para exaltar-se: e a passividade da professora seria esmagada por uma desordem inconcebível. Não; aquela professora que, por falta de prática e por excessiva rigidez, ou por simplismo de princípios ou de ideias, se encontrasse em tal situação — pense nos poderes adormecidos naquelas pequeninas almas divinas, generosas e puras — chame-as: desperte quem dorme com a sua voz, com a sua frase. Ajude quem desce loucamente a subir de novo. Uma voz enérgica, um chamamento absoluto — é a única obra de caridade para com aquelas almas. —

Não tema destruir o mal —

É o bem que não se deve destruir. Assim como a criança deve ser chamada pelo nome para que nos responda, assim também a alma deve ser vigorosamente chamada e despertada. Que a professora retire o material da escola — e os princípios aprendidos da mente: e resolva na prática o seu problema do "chamamento". Só a sua inteligência pode resolver tal problema, que varia em cada caso particular. — A professora conhece os sintomas fundamentais — e os remédios diretos — a teoria do tratamento: — e depois é ela quem faz o resto. O bom médico, como a boa professora, são individualidades; não são nem o remédio, nem o método educativo.

Se for necessária, em algum momento, uma voz alta para dominar uma desordem que a imitação tornou geral e uniforme, ou se for útil falar ao ouvido de um pequeno grupo de crianças, o que poderia despertar a curiosidade de outras crianças e fazer assim cessar a desordem; ou se for um acorde tocado violentamente ao piano que faça cessar a desordem como uma chicotada que quebre a má atividade — estes são pormenores confiados à professora, que dá os seus primeiros passos no novo caminho.

A frágil ordem.

Uma professora experiente nunca terá a desordem extrema — pois ela, antes de retirar-se para a inação, fica "vigilante" por algum tempo — e dirige as crianças de fora para "prepará-las" negativamente, isto é, para refrear os movimentos desordenados. Há, para isso, uma série de exercícios preparatórios que a professora não deve esquecer: e as crianças cuja mente está ausente do mundo real — devem sentir a "ajuda da personagem forte" que é a professora: calma, segura e paciente, cuja voz fala às crianças, as comanda e as exorta. Transportar cadeiras e mesinhas sem fazer barulho — dispor uma fila de cadeirinhas e sentar-se nelas, correr de uma ponta à outra da sala na ponta dos pés, são os exercícios mais adequados. Ou então, se a professora está realmente segura de si — bastará provavelmente que diga: "Agora vamos ficar quietos", e todos, como por encanto, se acalmarão. Os mais simples exercícios de vida prática poderão reter na terra do trabalho as pequenas almas fugidias que foram assim chamadas de volta. Pouco a pouco a professora oferecerá o material, sem nunca deixá-lo à livre escolha das crianças enquanto o seu uso não for conhecido.

O segundo nível.

Eis que surge uma classe tranquila — as crianças estão em relação direta com a realidade — aparecem ações que tendem a atingir um fim prático: como tirar o pó de uma mesinha, lavar uma mancha e coisas semelhantes; vão ao armário, pegam um material e o usam corretamente. Parece que a livre escolha se exerce com perfeição. Em geral a professora fica satisfeita, mas constata que o material determinado pelo método é insuficiente e se vê diante de uma "evidente necessidade" de aumentá-lo. "Em uma semana as crianças já passaram e repassaram todo o material." Talvez a maior parte das escolas não avance além disso.

Mas há um caráter, um só, que revela a "fragilidade" dessa "ordem" aparente — e ameaça o desmoronamento de todo o edifício educativo: as crianças passam de coisa em coisa — executam cada exercício uma só vez e logo depois trocam de material. O ir e vir rumo aos lugares onde os materiais estão expostos é contínuo. Nenhuma criança encontrou, na terra onde desceu, o interesse que seja digno de despertar o divino, possante Eu (ego) que há nela: a sua personalidade "não se exercita" a desdobrar-se e a fortalecer-se. — Nesse toque passageiro de todas as coisas, o mundo exterior não pode ter sobre ela a influência que põe a alma em equilíbrio com o mundo. A criança é como uma abelha que pousa em várias flores, mas não encontrou aquela flor na qual se fixará para sugar o néctar até ficar repleta: — e até sentir despertar a maravilhosa atividade de compor a grande construção que o instinto depositou nela.

A professora sabe, nesse estágio da "atenção errante", que a sua tarefa é difícil: também ela, em geral, corre de criança em criança, e se apodera dela uma agitação angustiosa e cansativa. Muitas crianças, às suas costas, brincam com o material, cansam-se dele, fazem mau uso dele. Enquanto a professora se ocupa de uma criança, outras cometem erros. O progresso intelectual e moral tão exaltado nas crianças não vem.

Aquela aparente disciplina é coisa muito frágil — e a professora, tendo a sensação da desordem que está por vir, vive em tensão. A maior parte das professoras que tiveram prática insuficiente — ou escassa preparação — acaba por julgar que aquela criança tão exaltada e esperada é uma ilusão, ou melhor, "um ideal" — mas que, na realidade, uma classe mantida assim à custa das suas forças nervosas é cansativa para a professora e pouco proveitosa para a instrução das crianças.

É necessário que a professora saiba julgar as crianças — elas estão num período de "passagem" — estão "do lado de fora da porta". A sua alma está "batendo" e se encontra na inconsciente expectativa de "que lhe seja aberto". Mas, quanto ao seu progresso, está pouco além de onde estava antes. Esse estágio está mais próximo do caos do que da disciplina. "Todos os trabalhos" de tais crianças serão imperfeitos: os movimentos, na sua coordenação elementar, não têm força nem elegância, e os atos são mutáveis, sem constância. Em relação ao primeiro grau, de "ausência do mundo real", mal progrediram: é apenas uma "convalescença" depois da doença.

É nesse delicado período de desenvolvimento que a professora deve exercer duas ações diferentes: primeiro, "a vigilância" sobre todas as crianças; e depois as "lições individuais", isto é, a oferta regular do material, ilustrando-lhe o uso "e x a t o". A distribuição da atenção e a lição dada com exatidão são os dois meios de que a professora dispõe para ajudar o desenvolvimento infantil. Nesse período, ela se guardará bem de jamais voltar as costas à classe inteira para ocupar-se de uma única criança. A sua "presença" deve tornar-se "sensível" a todas aquelas almas errantes em busca da vida eterna. As lições exatas e enérgicas dirigidas na intimidade a cada indivíduo separadamente são uma oferta que a professora faz à alma profunda da criança. É grande a expectativa de quem dirige tais chamados. Um dia algum espírito despertará: o Eu profundo se tornará senhor de um objeto — a atenção se fixará na repetição do mesmo exercício — a exatidão da execução se tornará perfeita: o rosto irradiado de glória contará o grande fato do renascimento.

A disciplina.

A "livre escolha" é um ato superior: a criança que "sabe" aquilo de que agora precisa para exercitar-se e desenvolver a sua vida espiritual — faz "uma livre escolha". Ao contrário, ainda não se pode falar de "escolha livre" quando são todos os objetos externos que chamam a criança — e ela, vazia de vontade possante e diretiva, cede e passa de coisa em coisa, sem fim. Esta é uma das diferenças mais importantes que a professora deve ser capaz de observar. A criança que ainda não obedece ao "guia interior" não é a criança livre que penetrou no longo e estreito caminho da perfeição. Pelo contrário, ainda é serva das sensações superficiais, que fazem dela um joguete do ambiente: os vários objetos lançam uns aos outros aquela alma de criança, como se com ela jogassem bola. O homem nasce quando a alma sente a si mesma — se fixa, se orienta e "escolhe".

Um fato tão simples, e no entanto grandioso — encontra-se em todo ser, pelo instinto ínsito em todas as coisas vivas — o de "escolher", no ambiente multiforme e complicado, aquilo, e somente aquilo, que é estritamente necessário para manter a vida. As raízes de cada planta "escolhem", entre as tantas substâncias do solo — aquelas que lhes são necessárias: a vampirela das espirogiras "escolhe", entre as algas das fontes, aquela que está destinada a nutri-la; assim como cada inseto escolhe definitivamente e se fixa na flor criada para recebê-lo. No homem, porém, um discernimento tão maravilhoso não é puro instinto, mas antes uma conquista. A criança tem, especialmente nos primeiros anos de vida, uma "sensibilidade" interior às próprias necessidades espirituais, que a repressão e a educação errada podem ocultar sob uma escravidão aos sentidos exteriores, propensos a todo objeto. Nós perdemos aquela sensibilidade profunda e vital — e nos encontramos diante da sua ressurreição nas crianças quase como diante de um mistério que se nos revelasse. É esse ato "delicado" da livre escolha que um professor não iniciado na observação pisotearia sem se dar conta — como o pé de um elefante esmagaria um botão nascente entre a relva do prado. Aquela criança que se "fixou" com grande interesse sobre o objeto escolhido — e que nele se concentra na repetição do exercício, é uma alma salva, no sentido da saúde espiritual de que falamos. Já não é preciso ocupar-se dela, a não ser para servi-la, preparando as coisas necessárias no ambiente e derrubando os obstáculos que possam apresentar-se no seu caminho de perfeição.

É, pois, somente diante desses fenômenos que a professora deve "reprimir a si mesma", para que o espírito infantil seja livre de expandir-se e de exprimir-se — aqui a sua tarefa importante é "não interromper" os atos infantis — (pois aquela que era ajuda — poderia tornar-se obstáculo e causa de repressão). Esta é a época em que a "delicadeza" da preparação de uma professora está em conter "o impulso de ajudar", assim como o "impulso de admirar" —: e ela deve aprender a missão nada fácil de "servir" — ou, conforme o caso, de "esperar observando". A "serva" é ainda uma observadora — pois o fenômeno nascente da "concentração" na criança é verdadeiramente delicado como um botão prestes a abrir-se. Ela já não observa para fazer sentir que está "presente" e ajudar com a sua força almas fracas, mas observa para "procurar" a criança que concentrou a sua atenção, para reconhecer o "glorioso recém-nascido do espírito".

A criança que se concentra permanece fechada em si e isolada do ambiente e das pessoas que a cercam. Por um instante — é o espírito do eremita no deserto: é então que nasce nela uma nova consciência, a consciência da própria individualidade. Terminada a concentração, parece dar-se conta, quase pela primeira vez, do mundo exterior que a cerca e onde fará contínuas descobertas; e dos companheiros, pelos quais está prestes a tomar um interesse afetuoso.

Desperta como um amante das pessoas e das coisas — pacífica e doce de afeto para com todos — e admiradora de toda beleza. — De fato, é claro o procedimento da sua natureza espiritual — aquele ter de destacar-se do conjunto para adquirir o poder de unir-se a ele. É preciso sair da cidade para admirar o seu panorama —; é do aeroplano, isto é, elevando-se da terra, que se veem os seus contornos. Assim a alma humana, para existir e para "viver" com a humanidade — deve fazer-se solitária, fortalecer-se — e então ver e amar as criaturas. É o eremita aquele que se prepara para ver com sabedoria e justiça as necessidades sociais que permanecem obscuras e imperceptíveis à humanidade amalgamada — e é a preparação no deserto que precede as grandes missões de amor e de paz.

A criança põe-se com simplicidade numa atitude de profundo isolamento — e também nela as consequências são o caráter forte e pacífico, que irradia amor à sua volta. Sobre essa atitude, o sacrifício de si, o trabalho constante, a obediência e, ao mesmo tempo, a alegria de viver — brotam como uma fresca nascente que abriu caminho entre as pedras — e que está destinada a ajudar a vida em toda a sua volta. É por isso que a concentração traz como consequência um vivíssimo sentimento social. — A professora deve estar preparada para isso: ela começa a existir diante dos pequenos corações nascentes como uma criatura amada. Eles a "descobrem" como descobriram o belo azul do céu — e os perfumes imperceptíveis das ervinhas escondidas nos campos. As necessidades dessas crianças ricas de entusiasmo — explosivas em seus progressos maravilhosos — poderiam confundir a professora inexperiente. Assim como, nos primeiros graus, não era a enorme quantidade de atos desordenados que devia preocupá-la, mas apenas os sinais de necessidades fundamentais, assim agora não é a múltipla manifestação de atos resplandecentes de riqueza moral que deve dominá-la.

Ela deve mirar sempre algo de simples e de central — que é como o gonzo que sustenta as portas — escondido, necessário — mas independente dos méritos das portas esculpidas ou ricas de ouro e de pedras preciosas. — A sua missão tem sempre em mira algo de preciso e de constante. — Ela começa a sentir que "não é necessária", porque os progressos das crianças não guardam relação com a sua ação. Vê cada vez mais as crianças se tornarem independentes na livre escolha, na rica expressão — e nos progressos, que às vezes têm algo de prodigioso. — Ela se sente "serva" na humilde preparação do ambiente — e nos cuidados de ocultar a si mesma — é São João Batista depois da revelação pública do Messias: "convém que eu diminua e que ele cresça".

É este, ao contrário, o momento em que a sua autoridade está para ser procurada. Muitas e muitas devotadas amantes daquelas almas amáveis terão tido a experiência de um fato aparentemente árido e insignificante. As crianças que têm algum produto da sua atividade inteligente — um desenho, alguma palavra escrita ou pequenas coisas semelhantes — vão até a professora e lhe perguntam se está bem feito. Nunca vão perguntar-lhe nem o que devem fazer, nem como devem fazer — antes, defendem-se de toda ajuda: a escolha e a execução são os tesouros da alma libertada. Mas, concluído o trabalho, "vão pedir a sanção da sua autoridade". Quase um mesmo instinto as leva a defender energicamente a sua "solidão" — a sua oculta obediência às diretrizes interiores que cada uma parece escutar dentro de si — e depois a submeter à autoridade exterior aquilo que fizeram — como que para se certificarem de que "estão realmente seguindo pelo caminho certo". Isso faz pensar nos primeiros passos do pequeno corpo ainda não seguro — que precisa ver os braços do adulto estendidos, prontos a impedir a queda —, embora as forças que iniciam e aperfeiçoam o ato de andar estejam dentro da própria criança. A professora deve responder com um assentimento, encorajar com um sorriso — como a mãe sorri para o filhinho que dá os primeiros passos.

Porque o aperfeiçoamento, a segurança — devem desenvolver-se na criança — a partir de fontes interiores sobre as quais a professora nada pode.

De fato, a criança, tornada segura, não procurará mais a aprovação da autoridade a cada passo. Começará a acumular as suas obras-primas, de todo desconhecidas dos outros — obedecendo à necessidade de produzir, de aperfeiçoar em exatidão e em harmonia as suas inúmeras produções. O que lhe interessa é poder completar o seu trabalho: — não é nem fazê-lo admirar, nem entesourá-lo como sua propriedade legítima: o alto instinto criativo que a guia é de todo isento de orgulho e de avareza. Muitos visitantes das nossas escolas puderam constatar que a professora mostra os mais belos trabalhos das crianças sem nunca apresentar o autor. O aparente esquecimento de um ato devido e honesto vem do hábito de saber que isso não tem importância alguma para as crianças. Em qualquer outra escola a professora se sentiria culpada se, mostrando um bom trabalho, não apresentasse o seu autor; e, caindo em tal esquecimento, talvez se ouvisse o protesto infantil: "Fui eu que fiz!"; mas aqui o autor provavelmente está isolado em algum canto, executando outra obra-prima — e o que deseja é não ser interrompido.

É este o tempo em que se estabelece a "disciplina" — aquela forma de paz ativa — de obediência e de amor, na qual o trabalho se multiplica e se aperfeiçoa, assim como na primavera as flores se colorem e as frutas geram produtos doces e refrescantes.

Tradução integral feita com apoio de inteligência artificial a partir de fac-símile digital (Atlante Montessori / Opera Nazionale Montessori).

Análise complementar

O ponto central do artigo é que a disciplina não está no começo, está no fim, e que o caminho até ela tem fases com regras opostas. No caos, a professora age: chama as crianças, com voz enérgica se for preciso, porque “Não tema destruir o mal”. Na fase seguinte, vigia a classe inteira e dá lições curtas e exatas. Só diante da criança concentrada ela se contém, segurando tanto a vontade de ajudar quanto a de admirar. Ler o texto só pela firmeza do começo, ou só pela contenção do fim, é ler metade dele.

A fase mais enganosa é a do meio. A classe está calma, cada criança usa o material do jeito certo, e parece que a livre escolha já funciona. Montessori chama essa ordem de frágil: a criança passa por todos os objetos sem se fixar em nenhum, “como uma abelha que pousa em várias flores”, e ela diz que talvez a maior parte das escolas não avance além disso. O sinal de mudança não é o silêncio, é a repetição, o dia em que uma criança volta ao mesmo exercício e se concentra nele. Por isso ela chama a livre escolha de ato superior: só escolhe de fato quem já sabe do que precisa.

O fim do texto usa linguagem abertamente religiosa, com a imagem de São João Batista para a professora que diminui enquanto a criança cresce. O que ela descreve, porém, é concreto: crianças que deixam de perguntar o que fazer, passam a querer saber se ficou bem feito e, mais adiante, nem isso, porque o que lhes interessa é completar o trabalho. Escrito para professoras, o artigo serve a qualquer adulto que queira dar liberdade sem abandonar a criança, e a pergunta que ele deixa é em qual desses momentos está a criança que temos diante de nós.

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