Na inauguração de uma sala para crianças pobres, num prédio popular de Roma, a médica chamada para cuidar delas anunciou que ali começava uma obra grandiosa, da qual o mundo inteiro haveria de falar. Os presentes ficaram espantados e perguntavam uns aos outros por que tanto exagero com um asilo de crianças. A médica era Maria Montessori, o dia era 6 de janeiro de 1907, e quem conta a cena é ela mesma, no texto que a revista italiana Vita dell'infanzia pôs na abertura do número de maio e junho de 1962, dedicado aos dez anos de sua morte.
A página reúne três coisas dela: o texto impresso, um trecho manuscrito reproduzido em fac-símile e um quadro com uma passagem de O método da pedagogia científica. A revista data o texto de 6 de janeiro de 1907, embora ele fale daquele dia como lembrança, e não diz de onde o tirou. O começo que ela descreve é modesto. Eram umas cinquenta crianças paupérrimas, de aspecto rude e tímido, muitas chorando, quase todas filhas de pais analfabetos. O projeto era reunir os filhos pequenos dos operários para que não ficassem abandonados nas escadas nem sujassem as paredes. O método, diz ela, ainda não existia: nasceria ali em pouco tempo.
Aquele dia era a Epifania, e as palavras da Escritura lidas nas igrejas, sobre a estrela do oriente a cuja luz caminharão os povos, pareceram-lhe um augúrio. Ela começou o trabalho, conta, como um camponês que guardou uma boa semente de trigo e recebeu um campo de terra fecunda para semear. Não foi o que aconteceu. “Mal revolvi os torrões daquela terra, vi ouro em vez de trigo”, escreve. E corrige a própria imagem: em vez do camponês, ela era como o tolo Aladim, que tinha nas mãos, sem saber, uma chave capaz de abrir tesouros escondidos.
A chave eram os objetos que ela já tinha usado com crianças deficientes, palavra da época que o texto emprega ao lado de atrasadas e normais. Que esses meios servissem também às crianças normais não lhe parecia nada de maravilhoso: o que fortalece as mentes fracas contém, diz ela, os princípios de uma higiene da inteligência. A surpresa veio do modo como serviram. Com os deficientes, ela precisava empregar toda a sua atividade para convidá-los a se ocupar dos objetos. Ali, a criança era atraída de imediato, fixava no objeto toda a atenção e continuava “a trabalhar, a trabalhar e a trabalhar sem descanso, numa concentração maravilhosa”.
Depois do trabalho vinha o mais inesperado: a criança aparecia satisfeita, descansada e feliz. Montessori compara os objetos à pequena chave que dá corda num relógio; depois da corda de um momento, o relógio continua a andar por si. A conclusão vem grifada no texto: “a criança trabalha por si: e, depois de ter trabalhado, está mais forte, mais sã mentalmente do que antes”. Aquele trabalho, diz, é um verdadeiro reconstituinte mental.
Ela custou a acreditar. A cada nova experiência, respondia dentro de si: “agora não acredito; acreditarei da próxima vez”. Chegou a repreender a professora que lhe contava o que as crianças tinham feito sozinhas, e a professora, sem se ofender e muitas vezes comovida até as lágrimas, dizia que deviam ser os santos anjos a inspirá-las.
O fim é religioso, e é esse o trecho que a revista mostra na letra dela. Um dia, com grande comoção, Montessori se pôs respeitosamente diante das crianças e perguntou a si mesma se teria encontrado aquelas que estiveram nos braços de Cristo. Prometeu estudá-las e seguiu “com a tocha da fé na mão”. No quadro que fecha a página, ela conta ter visto homens de negócios e de poder ficarem serenos na Casa das Crianças, e lembra o poeta inglês Wordsworth, que pediu à natureza o segredo da vida inteira e teve a revelação de que o segredo de toda a natureza está na alma da criança.
Para quem convive com crianças pequenas, o texto deixa uma observação que se pode conferir em casa: nem todo trabalho cansa. Vale lê-lo reparando em como a criança sai de uma atividade espontânea que levou até o fim. A seguir, o texto completo de Maria Montessori, com o manuscrito e o quadro.
O texto de Maria Montessori, na íntegra
Fonte: Vita dell'infanzia (Rivista mensile dell'Opera Montessori), Roma, 1962, Anno XI, n. 5-6 (maggio-giugno 1962), p. 3–4
Título original: "Trovai oro invece di grano" (italiano)
"Encontrei ouro em vez de trigo"
[Fac-símile de trecho manuscrito de Maria Montessori:]
Foi com grande comoção que um dia tomei o meu coração nas duas mãos, como para encorajá-lo a subir às alturas da fé — e me pus respeitosamente diante das crianças, dizendo dentro de mim: «Quem sois vós, então? — Terei eu encontrado aquelas crianças que estiveram nos braços de Cristo e às quais foram dirigidas palavras divinas? Eu vos estudarei, para entrar convosco no reino dos céus.» — E, com a tocha da fé na mão, prossegui no meu caminho.
Era 6 de janeiro de 1907 quando se inaugurou a primeira escola de crianças pequenas normais, de 3 a 6 anos; não posso dizer com o meu método, porque ele ainda não existia! Mas inaugurou-se aquela escola onde o meu método haveria de nascer em pouco tempo. Naquele dia, porém, não havia mais do que umas cinquenta crianças paupérrimas, rudes e tímidas no aspecto; muitas choravam; quase todas eram filhas de pais analfabetos, e foram confiadas aos meus cuidados. O projeto inicial tinha sido reunir os filhos pequenos dos operários num prédio popular, para que não ficassem abandonados nas escadas e não sujassem as paredes nem fizessem desordem.
Para isso foi cedido, no próprio prédio, um cômodo de abrigo, um «asilo». Mas eu fui chamada a cuidar dessa instituição, que «podia ter um bom futuro». Os meus estudos sobre as crianças criminosas, sobretudo, e os meus estudos de médica, e o fato de ser mulher, fizeram pensar na minha pessoa quando se instituíram em Roma as Casas Populares modelo com o asilo das crianças.
Por uma impressão indefinível que senti dentro de mim, anunciei com ênfase, na inauguração, que «se iniciava uma obra grandiosa», da qual o mundo inteiro haveria de falar. As palavras da Escritura que naquele dia, a Epifania, se leem nas igrejas pareciam-me um augúrio e uma profecia: «enquanto a terra está envolta nas trevas, eis que surge a estrela do oriente, a cuja luz caminharão os povos».
Todos os presentes ficaram espantados e perguntavam uns aos outros: «por que a Montessori exagera tanto a importância de um asilo de crianças pobres?»
Comecei a minha obra como um camponês que tivesse posto de lado uma boa semente de trigo e a quem tivesse sido oferecido um campo de terra fecunda, para ali semear livremente. Mas não foi assim. Mal revolvi os torrões daquela terra, vi ouro em vez de trigo: os torrões escondiam um precioso tesouro.
Eu não era o camponês que julgara ser: era antes como o tolo Aladim, que tinha nas mãos, sem o saber, uma chave capaz de abrir os tesouros escondidos.
De fato, a minha ação sobre as crianças normais levou-me a uma série de surpresas, e talvez fosse interessante conhecer esta espécie de fábula maravilhosa.
É lógico compreender como aqueles meios que tinham trazido aos deficientes e aos criminosos um grande sucesso educativo possam constituir uma verdadeira chave para «ajudar o desenvolvimento» das crianças normais, e como todos os meios que tinham tido sucesso de tratamento para fortalecer as mentes fracas e para endireitar as inteligências falseadas contenham os princípios de uma higiene da inteligência excelente para ajudar as mentes normais a crescer fortes e retas. Tudo isso nada tem de maravilhoso, e a teoria educativa que daí resultou depois é o que de mais positivo e científico se possa construir para persuadir as mentes equilibradas e prudentes. Mas isso não impede que os primeiros resultados inesperados me lançassem no maior assombro e, muitas vezes, na incredulidade.
Aqueles objetos que eu apresentava às crianças normais não tinham sobre elas o mesmo efeito que haviam tido sobre os deficientes. Enquanto, para essas crianças atrasadas, os objetos me serviam de grande ajuda para atraí-las, eu tinha de empregar toda a minha atividade para convidar as crianças a ocupar-se deles: e os objetos, somados a todas as minhas forças, conseguiam fazer com que os deficientes melhorassem o seu estado mental, chegassem a ter ideias exatas e aprendessem alguma coisa.
Aqui, ao contrário, acontecia um fato completamente diferente. A criança era atraída de imediato pelo objeto, fixava nele intensamente toda a sua atenção e continuava a trabalhar, a trabalhar e a trabalhar sem descanso, numa concentração maravilhosa. E, depois de ter trabalhado, então aparecia «satisfeita, descansada e feliz». Sim, o repouso era o que se lia naqueles pequenos rostos serenos, naqueles olhos de criança brilhantes de contentamento, depois de realizado um trabalho espontâneo.
Era, por um lado, como se aqueles objetos fossem uma pequena chave que serve para dar corda num relógio: depois da corda de um momento, o relógio continua a andar por si. Eis o fato maravilhoso: «a criança trabalha por si: e, depois de ter trabalhado, está mais forte, mais sã mentalmente do que antes». Aquele trabalho é um verdadeiro «reconstituinte mental».
Foi preciso tempo para que eu me convencesse de que aquilo não era uma ilusão. A cada nova experiência que me provava tal seriedade — eu respondia dentro de mim —: «agora não acredito; acreditarei da próxima vez». Foi assim que permaneci longamente incrédula e, ao mesmo tempo, impressionada, comovida e trêmula como uma vestal diante do fogo sagrado.
Quantas vezes a professora das crianças recebeu de mim uma repreensão, quando me contava o que as crianças tinham feito sozinhas: «Sobre mim só faz efeito a seriedade: por que quer me fazer acreditar nessas coisas?»
E lembro-me de que a professora respondia sem se ofender e, muitas vezes, comovida até as lágrimas: «Certamente, a senhora tem razão, mas eu também olho, vejo essas coisas e penso: devem ser os santos anjos que inspiram estas crianças».
Foi com grande comoção que um dia tomei o meu coração nas duas mãos, como para encorajá-lo a subir às alturas da fé, e me pus respeitosamente diante das crianças, dizendo dentro de mim: «Quem sois vós, então? Terei eu encontrado aquelas crianças que estiveram nos braços de Cristo e às quais foram dirigidas palavras divinas? Eu vos estudarei, para entrar convosco no Reino dos Céus».
E, com a tocha da fé na mão, prossegui no meu caminho.
Roma, 6 de janeiro de 1907
MARIA MONTESSORI
[Quadro na p. 4:]
A «Casa dei Bambini» (Casa das Crianças) parece ter uma influência sobre todos: vi homens de negócios, homens de poder, preocupados tanto por um trabalho afanoso quanto pela consciência da própria superioridade social, tornarem-se serenos, dissolverem quase a rigidez pesada da sua posição, num doce esquecimento de si mesmos. É o efeito do espetáculo da alma humana que se desenvolveu segundo a sua verdadeira natureza; e que fez chamar os nossos pequeninos: crianças prodigiosas, crianças felizes, infância de uma humanidade mais evoluída do que a nossa.
Eu compreendo o grande poeta inglês Wordsworth, que, apaixonado pela natureza, começou a ouvir a misteriosa voz das suas cores e dos seus silêncios e lhe pediu o segredo da vida inteira. Até que, como um vidente, teve a revelação: o segredo de toda a natureza está na alma da criança.
Ele nos revela a verdadeira síntese da vida, que reside no espírito da humanidade.
De O método da pedagogia científica (Il metodo della pedagogia scientifica)
Tradução integral feita com apoio de inteligência artificial a partir de fac-símile digital (Atlante Montessori / Opera Nazionale Montessori).
