Todos os artigosBlog

A criança pequena, construtora da independência: seguir a criança, no passo dela

Por Equipe Escola Montessoriana · · 12 min de leitura

Professora lendo um livro ilustrado para bebês atentos

Quanto tempo leva um passeio de duas quadras com uma criança de dois anos? Depende de quem conduz. No passo do adulto, alguns minutos, com a criança no colo ou no carrinho. No passo dela, com parada em cada poça, muro e formiga, a manhã inteira. Maria Montessori defende a segunda opção num capítulo do livro Education for a New World, de 1946, que a revista italiana Vita dell'infanzia reproduziu em 2003 com um título dado pela redação: A criança pequena, construtora da independência.

O capítulo trata da criança de um ano e meio a dois anos, idade que Montessori chama de esforço máximo. Começa por uma ideia corrente, a de que as crianças são imitadoras e que, portanto, cabe a pais e professores dar bom exemplo. O raciocínio não tinha saída, observa ela, porque todos se sabiam longe de ser modelos de perfeição. E a natureza não trabalha assim: antes de imitar, a criança tem de estar preparada para imitar. Ninguém se torna pianista por simples imitação; é preciso preparar as mãos. “O esforço não está na imitação, mas na criação, dentro da psique, da possibilidade de imitar”.

Essa preparação se faz por ciclos de atividade. A criança se põe a realizar uma tarefa qualquer, talvez absurda para o raciocínio do adulto, e precisa levá-la até o fim; se o ciclo é interrompido, diz Montessori, isso aparece em desvios da normalidade e em falta de propósito. Daí a regra: os adultos não devem interromper nenhuma atividade infantil, por mais absurda que seja, desde que não seja perigosa demais.

Ela dá três exemplos. Um pequenino carrega banquinhos pesados, um por um, de uma ponta à outra da sala. Um menino sobe quarenta e cinco degraus que lhe chegam à cintura, olha para trás, perde o equilíbrio, cai escada abaixo sobre o tapete e, em vez de chorar, ri satisfeito. Outro, de um ano e meio, leva doze guardanapos passados, um de cada vez, até o canto mais afastado do corredor, dizendo “Um” a cada viagem, e depois os traz todos de volta. A reação habitual do adulto, compadecer-se e tirar o peso das mãos da criança, é, segundo os psicólogos que ela cita, uma das maiores repressões dessa idade.

Aos dois anos aparece a necessidade de caminhar. A criança é capaz de andar uma milha, ou até duas, e prefere os pontos difíceis do caminho. A ideia de que ela não consegue vem de esperarmos que ande no nosso passo. “Mas a criança não quer chegar a lugar nenhum; quer apenas andar”, escreve Montessori, e por isso é o adulto quem deve segui-la. Ela generaliza: seguir a criança é a regra em todos os campos da educação. O passeio que descreve tem um cordeiro pastando, uma flor para cheirar, uma árvore contornada quatro ou cinco vezes, um fiozinho de água, porque “a criança caminha com os olhos tanto quanto com as pernas”.

A educação pode ajudar esse caminhar de explorador apresentando à criança as cores e as formas das folhas, os hábitos dos insetos, dos animais e dos pássaros: quanto mais ela aprende, mais caminha. Para Montessori, caminhar assim é um exercício completo, e ela recusa a ideia de cortar a vida em duas, movendo os membros com o esporte e depois a mente com a leitura. Sobretudo na primeira idade, a vida deve ser um todo único.

O fecho passa do passeio à política. Como é difícil encontrar pessoas que não interrompam, os psicólogos pedem lugares onde os bebês possam trabalhar, e surgem escolas para crianças muito pequenas, já com um ano e meio, com casinhas em árvores que servem só para subir e descer. A educação nunca começa cedo demais, diz ela, se queremos que o homem seja um cidadão digno numa democracia livre. E conclui: “A verdadeira liberdade começa no início da vida, não na idade adulta”.

Para quem convive com uma criança dessa idade, o capítulo oferece um critério fácil de pôr à prova: diante de uma atividade que parece sem sentido, esperar para ver se há ali um ciclo que ela quer completar. E, no passeio, observar o que acontece quando é ela quem marca o passo. A seguir, o texto completo.

O texto de Maria Montessori, na íntegra

Fonte: Vita dell'infanzia, 2003, Anno LII n. 6 (luglio/agosto 2003), número "Il Nido Montessori: una casa per la vita", p. 35–40
Título original: Il bambino piccolo costruttore dell'indipendenza (título dado pela redação da revista ao trecho; no original inglês, é o capítulo IX, "Imitative Action and Cycles of Activity", de *Education for a New World*, 1946) (inglês (a revista reproduz a tradução italiana publicada em *Educazione per un mondo nuovo*, Milão, Garzanti, 1970))

A criança pequena, construtora da independência

A idade de um ano e meio tornou-se um grande centro de interesse para os psicólogos, por ser da maior importância na educação. Fisiologicamente, é o ponto em que se coordenam a preparação dos membros superiores e a dos inferiores; psicologicamente, a criança está às vésperas de revelar-se plenamente como homem, pois aos dois anos se completará com a explosão da linguagem, e já se esforça por exteriorizar o que traz dentro de si.

É fato reconhecido que esta é uma idade de esforço máximo, que deve ser amparado, e também que as crianças mostram um instinto de imitação. Sempre se disse que as crianças são imitadoras, mas era uma afirmação superficial, que exigia de pais e professores que dessem bom exemplo para os pequenos seguirem. O resultado não foi inteiramente feliz, pois todos pensavam que deviam ser modelos de perfeição, embora soubessem estar longe disso. Queríamos uma humanidade perfeita; pensávamos que a humanidade devia tornar-se perfeita imitando-nos; mas nós éramos imperfeitos, e assim o impasse era sem saída. A natureza, porém, não seguiu esse raciocínio. O que importa é que a criança tem de estar preparada para imitar, e é essa preparação que conta, e ela depende do esforço da própria criança. O esforço não está na imitação, mas na criação, dentro da psique, da possibilidade de imitar, de transformar-se na coisa desejada. Uma criança não pode tornar-se pianista por simples imitação: precisa preparar as mãos para adquirir a agilidade necessária; e, num plano mais elevado, contar histórias de heróis e de santos não fará da criança um herói ou um santo enquanto o seu espírito não estiver preparado. A imitação pode fornecer inspiração e interesse, mas é preciso uma preparação para realizá-la. A natureza não dá apenas o instinto de imitação, mas também o esforço, dentro de nós, de nos transformarmos naquilo que o exemplo mostra; por isso os educadores que acreditam em ajudar a vida devem ver de que maneiras podem ajudar esses esforços.

A criança dessa idade põe-se a realizar uma tarefa qualquer, talvez absurda para o raciocínio do adulto, mas isso não tem a menor importância: ela precisa levar a atividade até o fim. Há um impulso vital para completar a ação, e, se o ciclo desse impulso é interrompido, isso aparece em desvios da normalidade e em falta de propósito. Hoje se atribui muita importância a esse ciclo de atividade, que é uma preparação indireta para a vida futura. Ao longo de toda a vida os homens se preparam indiretamente para o futuro, e nota-se, a respeito dos que fizeram algo de grande, que houve antes um período de trabalho empenhado em alguma coisa, não necessariamente na mesma linha da obra final, mas um esforço intenso, em alguma direção, que deu ao espírito a preparação necessária; e esse esforço deve expandir-se plenamente: o ciclo deve ser completado. Por isso os adultos não devem intervir para interromper nenhuma atividade infantil, por mais absurda que seja, desde que, bem entendido, não seja perigosa demais para a vida e a integridade física! A criança deve levar a cabo o seu ciclo de atividade.

Essa atividade assume muitas formas interessantes; uma delas é carregar pesos muito superiores às próprias forças, e sem razão aparente. Na casa de um amigo vi certa vez um pequenino que se afanava em carregar pesados banquinhos, um por um, de uma ponta à outra da sala. As crianças dessa idade continuam a levar coisas de lá para cá até ficarem cansadas. A reação habitual do adulto é compadecer-se da fraqueza da criança, ir ajudá-la e tirar-lhe o peso; mas os psicólogos reconheceram que essa interrupção de um ciclo de atividade escolhido pela criança é uma das maiores repressões desta idade, e que leva a dificuldades mais tarde. Outro esforço predileto é subir escadas, não para chegar ao andar de cima, pois, ao chegar ao alto, a criança tem de voltar ao ponto de partida para completar o ciclo. Vi um menino que subia uma escada muito íngreme; cada degrau chegava-lhe à cintura, e ele tinha de usar as duas mãos para se içar e depois girar as pernas numa posição dificílima; mas teve a constância de chegar ao topo: quarenta e cinco degraus. Então olhou para trás para ver o que tinha conseguido, perdeu o equilíbrio e caiu de costas escada abaixo. Os degraus eram cobertos por um tapete espesso, de modo que pouco se machucou, e, quando deu o último solavanco e se viu de novo embaixo, ficou de frente para nós, na sala. Pensamos que fosse chorar, mas, em vez disso, riu satisfeito, como quem diz: "Como é difícil subir e como é fácil descer!"

Às vezes esses esforços revelam atenção e fina coordenação de movimentos, mais do que força. Um menino de um ano e meio, que tinha liberdade de andar pela casa, chegou a uma rouparia onde doze guardanapos grandes estavam empilhados, passados e à espera de serem guardados. O pequeno pegou o de cima com as duas mãos, feliz por ver que ele se soltava da pilha, seguiu pelo corredor e depositou-o com cuidado no chão, no canto mais afastado. Feito isso, voltou para buscar outro e repetiu a ação com cada um dos doze, dizendo para si mesmo, cada vez que pegava um, "Um". Quando os pôs todos no lugar que escolhera, pensamos que a ação estivesse terminada; mas não! Assim que o último ficou no canto, começou a levá-los de volta ao lugar de origem, sempre carregando um de cada vez e dizendo "Um" a cada um. A atenção da criança era maravilhosa, e ela tinha no rosto uma expressão encantada quando se afastou, para cuidar de outros afazeres seus.

Aos dois anos a criança tem uma necessidade de caminhar que a maioria dos psicólogos deixa de considerar. Ela é capaz de andar uma milha, ou até duas, e, se parte do caminho for em subida, tanto melhor, pois adora subir; os pontos difíceis do passeio são os que lhe interessam. Mas os adultos precisam compreender o que o caminhar significa para a criança; a ideia de que ela não consegue andar vem do fato de esperarem que ande no passo deles, e, quando ela, por ter as pernas curtas, não consegue acompanhá-los, pegam-na no colo e a carregam, para chegar mais depressa à meta. Mas a criança não quer chegar a lugar nenhum; quer apenas andar, e, para ajudá-la de verdade, o adulto deve seguir a criança, e não esperar que ela o acompanhe. A necessidade de seguir a criança fica aqui claramente demonstrada; mas, na verdade, essa é a regra para todos os aspectos da educação e em todos os campos. A criança tem as suas próprias leis de crescimento, e, se queremos ajudá-la a crescer, devemos segui-la em vez de nos impormos a ela. A criança caminha com os olhos tanto quanto com as pernas, e são as coisas interessantes do caminho que a levam adiante. Anda até ver um cordeiro pastando: sente-se atraída e senta-se junto dele, observando. Satisfeita com essa experiência, vai mais adiante e vê uma flor, junto à qual se senta para cheirá-la; um pouco mais à frente, é atraída por uma árvore e dá quatro ou cinco voltas em torno dela antes de prosseguir. Desse modo pode percorrer milhas, cheias de pausas de descanso e de descobertas interessantes; e, se há no caminho algo difícil, como uma rocha para escalar ou água para atravessar, a sua felicidade é completa. A água é uma grande atração, e às vezes a criança se senta e diz, encantada: "Água", diante de um fiozinho de riacho que cai gota a gota, no qual o adulto nem teria reparado. Assim, ela tem do caminhar uma ideia diferente da de sua babá, que quer chegar a um lugar no menor tempo possível. A babá a leva ao parque para passear, ou a põe para tomar ar num carrinho com a capota levantada, de modo que ela não pode ver muitas coisas.

A educação deve levar em conta o homem que caminha, que caminha como um explorador; todas as crianças deveriam caminhar assim, guiadas pela atração, e aqui a educação pode ajudar a criança apresentando-lhe as cores, os feitios e as formas das folhas, os hábitos dos insetos, dos animais e dos pássaros. Tudo isso dá um objeto ao seu interesse quando ela sai, e quanto mais aprende, mais caminha. Em si mesmo, o caminhar é um exercício completo; não há necessidade de outros esforços de ginástica, porque só ele já faz a criança respirar e digerir melhor, que são as vantagens que se esperam dos esportes. A beleza do corpo se constrói caminhando, e, se a criança encontra algo interessante para recolher e classificar, ou uma vala para cavar, ou lenha a buscar para uma fogueira, então essas ações que acompanham o caminhar tornam o exercício completo.

Isso deve fazer parte da educação, sobretudo hoje, quando as pessoas raramente caminham e andam de carro ou em veículos de algum tipo, de modo que há uma tendência à paralisia e à preguiça. A vida não pode ser cortada em duas, movendo os membros com o esporte e depois a mente com a leitura. A vida deve ser um todo único, sobretudo na primeira idade, quando a criança está construindo a si mesma.

É tão difícil encontrar pessoas que não interrompam, mas compreendam e respeitem a independência da criança em seguir as suas linhas naturais de crescimento, que os psicólogos pedem lugares onde os bebês possam trabalhar; daí surgem escolas para crianças muito pequenas, até de um ano e meio. Toda sorte de coisas é oferecida nessas escolas, como casinhas em árvores, com escadas para subir e descer. A casinha não é para morar, mas para oferecer um centro de interesse à atividade de escalar. É o reconhecimento de que a educação nunca começa cedo demais, se queremos que o homem seja um cidadão digno numa democracia livre. Como podemos falar de Democracia ou de Liberdade quando, desde o início da vida, moldamos a criança para suportar a tirania, para obedecer a um ditador? Como podemos esperar democracia se criamos escravos? A verdadeira liberdade começa no início da vida, não na idade adulta. Essas pessoas que foram diminuídas em suas faculdades, tornadas míopes, desvitalizadas pela fadiga mental, cujos corpos se deformaram, cuja vontade foi quebrada pelos mais velhos que dizem: "A sua vontade deve desaparecer, e a minha prevalecer!" — como podemos esperar que elas, terminada a vida escolar, aceitem e usem os direitos da liberdade?

[Indicação de fonte da redação:] (de Educação para um mundo novo (Educazione per un mondo nuovo), Milão, Garzanti, 1970 – 1ª edição em língua inglesa, 1946)

Tradução integral feita com apoio de inteligência artificial a partir de original inglês de Montessori (*Education for a New World*, Adyar, Madras, Kalakshetra, 1946, cap. IX, p. 66–72) e cotejada frase a frase com o fac-símile digital da revista (Atlante Montessori / Opera Nazionale Montessori).

Venha ver isso de perto

A melhor forma de escolher uma escola é visitá-la em funcionamento. Agende uma visita e conheça nosso espaço, nossa equipe e nossa proposta.